Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

RECONHECENDO AS FLORES



RECONHECENDO AS FLORES

Devagar eu vou te descobrindo
como um abrir de pétalas em flor rara,
orvalho temperado de noites e de esperas
com toques de paixão na pele clara.

E sem consentimento acendo a tua chama
com um desejo intenso que se espalha
por todo o teu desejo assim tão escondido
em tramas de querer que aos poucos se declara

E vou abrindo o meu sorriso ao brilho dos teus olhos
que me envolvem a alma
como uma estrela que encontra o seu céu e nele se instala

E como uma colcha de infinito então te cubro
firme e docemente com a calma
de quem perfuma em paixão a flor, e então se cala

A.SOARES NETO 2009 ( AMANTES INFIÉIS )

Sábado, 20 de Junho de 2009

DE TODOS OS ENCANTAMENTOS




Fazer da dor o encanto em movimento,
o balé dos ventos na tormenta que não passa
por entre nossas asas de moinhos lentos,
braços que nadam rodopios de estorvos
em brandos contornos desajustados, como lagartos
navegando pedras, descuidados e atentos.
Mansos teares em dedos sonolentos que se perdem
de tanto procurar seus pontos, sonhos em mapas
desconhecidos que se desfazem, se perdem, se confundem,
pequenas pedras de rios mansos que navegam curvas
em despreocupado movimento.
Só quem ama é capaz de deslocar da vida o intenso,
a força que percorre em lavas as entranhas desse tempo
que mora em nossos becos desconhecidos, desavisados
de nossos melhores tormentos.
Paixões costuradas em escombros de almas eternecidas
cobertas por feridas expostas aos menores encantamentos,
mãos em prece purgando ausências em penoso sofrimento
onde jamais se escuta um ai, uma sombra de dor,
uma coisa qualquer que aperta o peito como línguas amargas
lambendo resquícios de vento.
Escaras de esperas longas como o dia, como um dia de espera,
como qualquer coisa escassa, um passo, um lamento,
como uma hóstia que se bebe em plena rebeldia.

DAS INFINITAS PAIXÕES



Sou tua puta fiel, sou teu quebranto,
na bruta devoção do encanto sou teu guia,
lagarta que na gruta esguia te encasula
e sem remendos tece em seda o teu querer e sorte.
Por portos sem virtudes vou te levando transparente
a nortes indistintos, em febres penitentes,
escrava me tornando em teu suor, mel da minha gula,
sombra do teu pensamento errante
que mesmo ao não querer me chama, eu sei,
senhora que sou dos teus lençóis e tramas.
Dona do teu corpo e teu destino, tua sina insana,
sou quem sem te pertencer te apruma e comanda.
Come da minha mão, lambe minhas entranhas,
rasga o meu desejo com teu poder que engana,
que teus carinhos sejam meus, teus olhos, teu feitiço,
teus dedos de veludo tão profundo penetrando,
em nuvens me percorrendo, em fogo me inflamando,
como num mar sem tempo, sopro de vento me aprisionando.
Reza em mim, goza em meus ouvidos tua musica, teu canto,
a tua fúria pura e sem danos,
mata meu instinto insatisfeito do teu corpo,
químico e mundano, acuada em barrancos.
Assim sempre mais tua puta impaciente eu sou,
sou tua cama, sou teu sorriso mal aberto em sol ou lama,
sou tua rampa,
embora nunca bendigas meus amores
ou murmure uma só vez o nada que me ama.

TEU CHEIRO



Antes da palavra dos olhos
quero o teu cheiro
que me desperta e me chama
e me traz do longe onde estive.
Sopro morno da alma,
toque de leite puro, penetrante e doce
como não há musica nem lembrança,
nem beijo, nem brisa, nem euforia que marca .
Chegar da noite é percorrer teu cheiro
e nele aconchegar o acordar que tarda,
e se saber ancorado e firme, revigorado,
vivo e presente, como um nascer que basta.
Saber de um porto que não falha, ânfora lisa
preenchida de mel que purifica e acalma,
ter por completo um todo que ilumina
e sem saber bem porque, apenas sorrir,
fechar os olhos e levantar da cama,
que como um cofre se abre
para que eu saia.

NERUDIANA 2



Volto a falar como quem passa uma vida inteira
buscando em espelhos
o sentido inconstante dos desejos proibidos
rabiscados sem definição na tua pele.
Pergaminho indecifrável de contornos
como um rio manso que alisa vales e pomares
insistindo em fecundar a minha terra bruta,
chuva macia caindo em meus olhos
para sempre semeados desse teu encanto.
Cheiro de pó molhado, de vidraça antiga
respingada de vela,
viço de grama serenada estendendo tapetes
nos caminhos, para que eu sempre te encontre.
Para que eu possa me fartar do teu encanto
e da tua boca pintada, do teu riso,
como se na ousadia de te pertencer
eu pudesse entender para sempre o teu destino
e compreender o porque da luz intensa
envolvendo sempre os teus cabelos,
em sons sutis de serenata e de pandeiros.
Sei que são os olhos do meu querer que te fazem,
e quero te fazer como te vejo.
Quero poder ver o sentido dos teus lábios,
ainda tão desconhecidos,
entreabertos sempre entre prazer ou fúria,
tantas vezes para mim dissimulados,
sempre tão apressados como uma brisa ligeira
que por nunca me pertencer não me importavam.

LEMBRA DE MIM




Lembra de mim, eu peço inutilmente aos que passam,
eu sou aquele que já amou um dia,
imensamente mais do que em qualquer fantasia
e agora estou assim.
Eu sei de luas que surgiram e passaram por cima de telhados,
conheci gatos que nunca alcançaram a lua
e viveram sempre em senões de despedida, distantes e frustrados,
sei de amores que dormiram em silêncio e nada viram,
nunca viram luas ou souberam da paixão dos gatos.
Lembro de mim alimentado de sonhos, feliz, imenso, encantado,
quando amantes nossas bocas se entendiam, nossos corpos rolavam,
quando a eternidade nos dizia: eu sou teu sono, vem,
descansem tranqüilos ao meu lado.
E éramos do mundo a melhor parte, a parte viva
do intenso, o indiscritivel, o desejado,
a sensação de paz com que nos pertencíamos
o calor, a luz, o bem de estar lado a lado.
Lembra de mim, eu peço aos que passam,
desenhem meu contorno, fotografem meus lados,
eu fui alguém que amou um dia, tanto,
e já passei por aqui, por onde hoje passo,
já fui você que hoje me olha tão distante,
não se esqueça de mim, eu sou teu traço.

TANGO




Uma cadeira vazia ao lado do aparelho de som
escuta calada uma melodia que dança
um tango fiel, triste demais para existir como verdade.
Som de ausências, musica de quartos escuros
e rostos marcados, esperas de saudade pelos becos,
entre homens vadios e vômitos de vinhos baratos.
Lágrimas viúvas pelos olhos cansados, vazio
nos olhos que se fixam mudos, nunca mudados,
bocas vermelhas de cetim amassado
esperando quietas nas cadeiras brancas,
pelo silêncio, solidão , enfado...
Entreato do viver, tiras de vida rasgadas
ao som cruel de um amor desesperado e frio