sexta-feira, 16 de novembro de 2007

DOS AVISOS






A morte pode esperar por seu aviso,
Sonos de vida não devem ser despertados.
Cada amigo que morre é um eu que se vai
Triste, como um choro de sanfona,
Vazio como a saudade do tempo.
Por isso não há pressa em se saber da morte,
Como veio, como foi,
Para onde? Para sempre.
Um nunca mais sem graça e sem encanto,
Como tudo aquilo que não volta,
Então porque a pressa em saber?
Providenciar, vestir, enterrar,
Conter a angustia que sufoca,
Sorrir para não mostrar.
Que a noticia venha lenta
Que quase não chegue,
Aos tropeções, gaga, quase inaudível,
Apenas um sussurro de vento
Que não chega a machucar, dizendo:
Ele se foi, se foi, se foi...........
Como uma ultima folha que cai.

DOS SENTIMENTOS





Joguem-me as pedras
Que não me pertencem,
Delas é o meu corpo
E o meu sentir ligeiro,
Leves plumas que eu acolho por inteiro
E a quem me entrego
Com a doçura do sabor de um beijo.
Joguem palavras, pragas, pesadelos,
Que a tudo acolho
Humilde e passageiro,
Serenamente frio
Como um mal amado
Com um toque fino de infantil desejo.
E assim me entrego
Tão avulso e leve
Como quem vive entre a paixão
E o desespero,
Pois amar tanto
É ter nas pedras seu destino
E se doar
É construir de pedras o seu ninho,
Sem retoque ou zelo.

REVOADA





A mim só volto
Para refletir
O que de outros tiro:
Alguma família
Que já tive,
Alguma busca
Desencontrada
E depois perdida,
Alguma reta
Ou qualquer outro
Desvio.
Caminhos tortos já nem sei,
Andei-os todos,
E sentei em cada pedra
E escrevi versos
Em cada muro,
De paixão ou discórdia.
E sonhei,
Só eu vivi o tanto
Que sonhei.
Chorar só para fingir
De gente grande,
O bastante para sentir
Que se não chorar não vale,
Nem é gente
Nem é grande,
Por isso as tão poucas
Lagrimas fingidas
Que muito poucos notaram.
Sorrisos sim, na vida
E na morte,
Que dizem ser o inicio
De uma outra vida.
Então porque não sorrir?
Se nada acaba como deveria,
Só muda.
Tudo reflexo de tudo o que foi
E vai ser,
Tudo a mesma coisa partida.
Então eu sento e espero.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

CANSADO DA BRIGA





Em desespero
Doemo-nos aos famintos
Como ultima migalha
De uma ceia penitente
Que se arrasta neste mundo
Inverso e sem sentido,
Em pedaços regulares, sempre,
Obedecendo aos códigos estabelecidos,
Em meias metades configurados
E em múltiplas versões diluídos.
Como sementes estéreis,
Como pasmos objetos indefinidos,
Como adubo inorgânico de vida
Seremos ingeridos,
Com a maquiagem tosca
Que nos cabe,
Com todos os nossos incapazes desabrigos..
Vamos ao pó do ultimo grito
Sem renascer, sem reflexos,
Puras esferas ocas no infinito.

ORAÇÃO PELO HOMEM




Dai-me Senhor
A graça do bom senso
Para que o dia de hoje dignifique
O ato simples de viver.
Que eu perceba de forma simétrica
O claro e o escuro
Das almas passageiras
E suas intenções fugidias,
Que me saltem aos olhos
As distorções e as virtudes
Dos meus semelhantes,
Para que eu encontre
Cada vez mais facilmente
O equilíbrio do reconhecimento,
E formate assim o entender
Nem sempre explicito ou estável
Das minhas imagens.
Que eu venha a crescer
Sem pensar em criticar ou julgar
Tudo aquilo que à mim não cabe
E nem se ajusta.
Dai-me Senhor a compreensão exata
Daquilo que sou
Para que eu pondere de forma justa
A direção dos meus atos,
Para que eu viva em paz
E não fomente ódios ou discórdias
Nem gere inseguranças ou pesares.
Que eu consiga apenas o equilíbrio
Entre o pensar e o agir
E reconheça em mim
A forma imperfeita de todos os seres,
Com meus mesmos vícios e atitudes,
Os mesmos códigos
E as mesmas intenções de acerto.

DE UMA JANELA AO SUL


O POR DO SOL É DESCANSO,
REPOUSO, REMANSO.
NO GUAÍBA O POR DO SOL
É CAVALGADA E ACALANTO,
O ENCONTRO DO QUIETO
DAS AGUAS CRESPAS
DE VENTO COM O MANSO.




O PENSAR CALADO DE ESPANTO,
O MESCLAR DO VERMELHO
COM O BRANCO
DIZENDO: CALMA,
VEM MAIS PELA FRENTE,
NÃO TEM TAMANHO A COR
DO NOSSO ENCANTO.
A LUZ DO AZUL, O VERDE NO HOMEM,
A SOMBRA DO BARCO, A VARANDA,
SÃO MELODIAS DE ASSOBIAR
POR NADA,
DE DANÇAR NAS NUVENS,
DE ACORDAR NAS PRAIAS,
DE BRINDAR COM AS GARÇAS
O BANIR DOS PRANTOS.
OS CAMINHOS DO POETA
SÃO OS OLHOS
QUE DE NOITE, EM SILÊNCIO,
CONSTROEM PONTES
ONDE PELAS MANHÃS A VIDA PASSA.
PORTO ALEGRE FICA
EM MEU CORAÇÃO COMO ARGAMASSA.

( A. SOARES NETO )

( PRAIA DE BELAS, 12/10/2007 )

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

DAS PARTIDAS


PARA LUIS FERNANDO,MEU EU DISTANTE.


Não te pergunto da tua partida
Porque dentro de mim
Não permanecem mais
Tuas chegadas.
Façamos um acordo rápido
De justo amor contido:
Você não olha mais
Para os meus olhos
E eu não penetro nos teus,
Simples assim,
Pois não pode haver cumplicidade
Nas ausências, nem permissões,
Não pode haver tremor
Que traia
Um proceder de afeto umbilical,
Um rito,
Não pode haver saudade satisfeita
Nem emoção feroz que não se corrija,
Que sem querer desnude,
Que só contemple e assista.
Vai então bem devagar, calado,
Fugido, escondido, exilado,
Vai devagar
Sem que eu te veja,
Não bata a porta, não sorria.
Nem sequer respire,
Pois ao mais leve sopro teu
Meu coração acorda
E fica tão vazio,
Te pedindo que espere,
Que espere tanto
Que não partas nunca,
Nem por um instante,
Que sopre mais aos meus ouvidos
O teu riso
E que desfie ante meus olhos
Tuas farsas.
Deixa meus sentidos fechados,
E meu querer distante,
Vai
Porque é teu destino ir,
Mas não me acorde.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

DO IR VIVENDO



DO IR VIVENDO


Não combina realmente
A morte com a vida,
siamesas atreladas
por um fio de espelho,
desconjuntadas em seu peso,
tortas,
tão desiguais quanto uma pá
e um copo
descompondo a natureza.
A morte a mesma coisa de sempre:
Sem graça, artificial, destoante,
Tão pequena e sem sentido
Quanto um poço sem água.
A morte é seca.
A vida não.
Tudo cabe bem arrolhado
Em sua grandeza desmedida,
Até o sem sentido e o tolo,
Sabendo que o grande
Pode ser imensamente maior
Do que sempre aparenta,
Assim como um abraço
Quando existe o querer,
Assim como o pensar
Quando persiste a saudade.
A morte é véu
Que encobre um resto de noite
Encabulada de ser,
Uma pouca coisa que vem
E logo passa
Deixando o pó suspenso
E a voz calada.
Vida é assobio que cresce
No vento,
Que alegra e incomoda
Penetrando pelos vãos,
Criança grande que só brinca,
Como uma pipa colorida
Num céu sempre azul.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O FECHAR DAS CORTINAS





Parei de falar de todo eu
Comigo.
Descontada a moagem
Do espírito
Desnecessária e afoita
E já exposto infiel
Ao ato da ressurreição
Da carne,
Venho deixando aos poucos
De me buscar em mim,
Como uma gralha surrada,
Quase como uma descoberta
Tardia e sonolenta
De que o mundo existe inteiro
Além dos meus pés,
Que se medidos
Não tem o peso de um pão.
Por isso venho emperrando
Essas vertigens doentias
De me buscar em tudo
Onde nunca estive,
Como à um sol já posto,
Não por desquerer,
Nem por mais ou menos
Necessário ou justo.
Na verdade foram anos
Sem qualquer sentido
Visto que só por viver
A gente sem querer se acha,
E vai até o fim
Tentando esquecer o já sabido.
Vai-se o eu, ficam-se os nós.

RETROCONHECER





Não me abstraio,
Aponto
Labirintos ou velas
Que deslizam caminhos
Onde ainda não andei,
À ponto de gargalhar
De sombras passageiras,
Falando com as mãos justas
Em velocidade de estrela.
E fósforos vão repetindo
O efêmero do ver/não ver,
Luz mais rápida que os olhos
Que nunca descobrem,
Vidro quebrado,
Instinto no faro
Do perigo eminente,
Ponta de faca picando
O dedo que aponta,
Pedindo que não seja revelado
O óbvio,
Que nunca sejam cumpridas
Profecias de desamor ou perdas,
Que caiam gota a gota
Todas as cachoeiras do universo,
Preparando o tempo das vozes
Que murmuram ao longe
Caricias,
E trazem perfumes
De encontros secretos e vazios.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

RECIRCULANDO O NÓ





Entre o fazer e o não fazer
Está a asa de um pássaro,
Sem seu vôo,
Descuido da razão
Entre o saber e o fato,
E como nada descrito
Encontra-se fadado ao ato
Pergunta-se, às vezes tolamente,
Como encurtar o espaço
Que pode haver entre a ilusão
Da realização e o embaraço
De arbitrar o indistinto,
De formatar o insensato.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

CANTIGA DE NINAR O AMANHECER

( PARA VERIDIANA, UM POEMINHA DE SAUDADE)

Dorme
Porque é cedo ainda
Para não dormir,
Não á nada lá fora,
Acredite,
Melhor do que o gosto
Do sonho em teu sorriso,
Maior do que o teu silêncio
Que transcende as falas.
Encosta os olhos e dorme,
Tão serenamente
Como só se faz algumas vezes
Nesta vida,
Como aquele beijo
Que em si dado alegra o dia
E nada mais se espera dele
Senão risos.
Encanta os olhos e dorme,
Vai menina,
Buscar nas flautas
O prazer das descobertas
Que te aconchegam os sonhos,
Pensamentos, fantasias,
Brinca de espera por um tempo
E de criança ainda,
Brinca de ninar a madrugada
Enquanto a noite vigia,
E de ouvir o vento que vem vindo,
Que é só um vento passando,
Ouve,
Dizendo dorme, dorme,
Eu sou teu berço
E tua estrela-guia.

sábado, 25 de agosto de 2007

O ULTIMO PECADO


A MEDIOCRIDADE ME ENCANTA
TANTO QUANTO UMA SAPA
SEDUZIDA,
COMO AQUELAS FOLHAS
QUE NO OUTONO
AMARELAM E CAEM,
SÓ POR SER OUTONO,
OU SÓ PÓR SEREM FOLHAS.
A TENTATIVA DE SER
É UM VENTO MARGINAL
QUE SOPRA FRIO E ESPALHA
O DESEJO FEROZ DE PERTENCER,
QUE É TÃO INTENSO
E TÃO PRETENCIOSO
QUANTO UM GRITO,
QUE NOS QUER DESPERTOS
E CATIVOS.
VIVER É UM ATO CONTINUO
DE TANTO FAZ,
CONTANTO QUE CONVENÇA,
BUQUÊ DE MATIZES TRISTES
SEM CORES DEFINIDAS
DE SONHOS DOURADOS
QUE SE BORRAM AO TEMPO,
CAMINHOS DESORDENADOS
SEMEADOS DE DESTINOS
SUPOSTAMENTE ORDENADOS
COMO UMA PLANTAÇÃO DE LIRIOS.
NÃO SER É O GRANDE PECADO
QUE CAMINHA SOZINHO

A CHEGADA


EU SOU A MINHA SALA DE ESPERA
CHEIA DE LIVROS MANSOS E POESIAS GUARDADAS,
TRANQUILA, EM PERENE SILÊNCIO,
ENTRE A PENUMBRA E O ENCANTO DO VAZIO.

SENTO E ESPERO POR MIM, NÃO TÃO DISTANTE
ESTOU QUE NÃO POSSA PRESSENTIR MINHA CHEGADA,
DESCANSO MEUS PÉS COMO CABEÇAS CANSADAS
E PREPARO MEU COLO PARA ESTREITAR O MEU ABRAÇO

ENCONTRO ENTÃO COMIGO E ME CONSOLO
COMO SEMPRE, ME ABRINDO E ME ABRIGANDO,
COBRINDO DE VELUDO O MEU CANSAÇO

DOU-ME ENTÃO O MELHOR DO MEU CONFORTO,
ANINHANDO-ME EM MIM EU ADORMEÇO
ME FAZENDO FELIZ AO MEU COMPASSO.

VIVENDO E INDO


NÃO CAMINHO POR PEDRAS
QUE MACHUCAM MEUS PÉS,
NEM GUARDO SAUDADES VAZIAS.
LEMBRANÇAS VOU DISPERSANDO
COMO NOITES, COMO DIAS,
VOU DEIXANDO MINHAS QUEIXAS
NOS VÃOS DAS MOITAS, NO VENTO,
QUE DILUEM DOR E MÁGUA
NOS MARES DO ESQUECIMENTO.
VOU CONSTRUINDO EM ATALHOS
A CORRENTEZA DOS RIOS,
QUE ME LEVAM, QUE ME LAVAM,
QUE ME SACIAM A SEDE,
ONDE TROCO A PELE VELHA
POR UM NOVO ANDAR ARISCO,
ONDE NADA SE ASSEMELHA
AO MEU ANTIGO SORRISO.
NO MEU DIA, NO MEU TEMPO,
INSTANTES SÓ DE PASSAGEM,
PONTE, CORRENTE, VERDADE,
CANAIS DE SINCERIDADE,
REAIS MELHORES SEMENTES.

LUZES APAGADAS


A SOMBRA DA VELA
NUMA MÃO ADORMECIDA
LEMBRA SAUDADE,
COMO UM RITUAL
SEM PRESENÇAS,
COMO MUSICA
SEM ECO
EM TAMBORES
DISTANTES.
SOMOS SEMPRE
TIMIDAS IMENSIDÕES
E VAZIOS,
VÔOS SEM POUSO
E SEM DIREÇÃO
DE VENTOS,
COMO SE NADA SUPRISSE
AS VERDADES
ADORMECIDAS,
COMO SE AS GOTAS
DE UM COPO DE VINHO
FOSSEM COMO CHORO
DE LEMBRANÇAS
EM ESTÉREIS
DESERTOS DE PAPEL.
VEJO MEU SONHO
COMO UM DIA,
À LUZ DE UMA VELA,
SEMPRE EM SOMBRAS.

BOA VIZINHANÇA


Bailar de sapatos sobre os mortos
em tapête de flores distinguido,
primaveras de sangue
desmanchadas em tramas
como colchas macias
aos meus pés estendidas.
Navegar na dor dos que ficaram
sempre ao lado
olhando perplexos, aturdidos,
a madrugada doce que fugia,
sem nunca saber quem foram,
perdidos, perdidos,
náufragos da criação, colar sem fio.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

SABOR DA TERRA





A chuva cai sobre o mato
E cobre a terra em mantas,
Tremor de ventos
Desamarrando velas
Construídas de flores
De paineira e juncos.
Inverno inquieto,
Mês dessemelhante,
Não prosperando frios
E sim águas
Não acendendo fogos
Mas sustento.
O verde espera intenso
O seu parto
Nos olhos da mão
Do homem,
Criança sorri inteira
No sorriso do pai,
Que investe
O pé na lama
E se aquieta
E em calma se proclama
Novamente homem,
Novamente chama.

DAS PORRADAS


MORRER CALADO É INSENSATO
TANTO QUANTO NUNCA TER VIVIDO,
NAUFRAGADO DE SÍ,NÃO DIGERIDO,
MAL ACABADO, FRUSTRADO, FUDIDO.

QUANDO A VÊZ







A espera é uma boca profunda
Com degraus de pedra,
Silencioso percorrer
De indistintas rotas
Que retrocedem
Ao inicio de tudo,
Em penosa lentidão
De caracóis sem rumo.
Há sempre um quase
Interrompendo os labirintos,
Suores frios
Entalhando faces,
Velas sem vento, insônia,
Sempre um coração alongado
Em si batendo,
Surdo, surdo,
Gritando quieto
Ao perceber o tempo.
Há sempre um que de morte,
Um desaviso,
Presságio de nadas
Soltos nos vazios,
Qualquer coisa de desequilíbrio,
De deixar de ser, de nicho,
Paredes brancas sem marcas,
Sem moscas,
Sem qualquer sentido.

domingo, 29 de julho de 2007

ESPELHO





Cuido do sol dos meus olhos
Que buscam a beleza
Como destino do instinto,
Faro de fera, chuva que espera
Trazer febre morna,
Colcha macia, chá de aconchego,
Totem sem brilho e sem retoque
Como um farol que mostra e nunca guia.
Estranhos saberes
Daqueles que se sabem
Importantes e derradeiros,
Desde o primeiro querer
Não consentido,
Desde a negação do mundo
Como berço,
Até a realização vulgar
De todos os sentidos.
Tempo que escorre aflito
Em busca da verdade,
Tempo que corre sempre
Da verdade que se esconde.
Compreender o querer
Não é nada divertido,
Não compreender é anular
O tempo e o sentido.
Estranhos os caminhos percorridos
Perdidos entre sonhos malfadados
Buscando em vão tesões desconhecidos.

TEU DOM





As tuas mãos em prece
Caminham delicadas
Por sobre as peles
Ressentidas,
Teu dom te chama
Faminto de curas,
A dor te espera,
O silencio dos olhos
Te buscam
Como se busca a água
E a sombra
Em meio aos desertos,
A esperança te sorri
A cada momento,
Cobrindo de ungüentos
Teus dedos peregrinos,
Te mandando ir
Sempre além do além
Onde repousa o alento,
Onde o abraço
Abraça o sofrimento
E transforma o pranto
Em alegria.
As tuas mãos de vento...
As tuas mãos de vento...

DAS DISTÃNCIAS





Te amasso com os olhos
Da minha saudade,
Já que sentir se pode
E a gente se permite,
Independente dos vãos
Que estruturamos frouxos
Entre as palavras não ditas
E os compassos esquivos
Nem sempre bem aventurados.
Descobrimos então
Uma distância que não há,
Distância que não mede
Tempo ou saudade,
Apenas a não palavra
Que clareia caminhos
E pressentimentos,
Distância que faz
Por não matar
Pois é necessário a agonia
Para por em ondas
Um sem tempo infinito,
Onde filmes, fotografias,
Gotas geladas,
Vão compulsivamente escorrendo
Por peles doces e brancas.
Gostar está além do querer,
Decisão inquieta
Onde não cabe o tempo,
Apenas a espera,
Boa mãe da reflexão honesta,
Do amadurecimento e das metas.
Saudade de barco
A espera da maré,
Num cais qualquer,
De qualquer tempo.

sábado, 16 de junho de 2007

BRANCA PELE BRANCA


BRANCA PELE BRANCA

Mal sabes
Que cobicei o teu corpo
Por um vão de porta,
Onde só podia entrar
O desejo dos meus olhos
Escondidos na sombra.
Percorri os teus caminhos
Impossíveis,
Brancos e macios,
Como quem rouba
A noite
Um bosque
E nele penetra sutilmente
Com medo e cuidado,
Respirar ofegante
Pedindo silencio e tempo,
Pés no ar
Com a premência da fuga
E a obrigação da espera.
Assim te vi em mim,
Pele a pele,
E fiquei preso para sempre
No teu corpo,
Assim te carrego comigo
Na lembrança doce
Do que poderia ter sido.

A.SOARES NETO ( AMANTES INFIÉIS )

terça-feira, 22 de maio de 2007

DOCE LOUCURA


É SÒMENTE NOITE E AUSÊNCIA
NA CRENÇA
DOS DESPROVIDOS DE RAZÃO.
UM VAZIO ENORME E LENTO
QUE OS SUSTENTA
E COMPLETA SEUS SONHOS
LIMITADOS,
FELIZES DESRAZOADOS,
SEM CONFLITOS,
SEM RESPONSABILIDADES,
SEM PERGUNTAS.

QUADRINHA


ROLA MEMÓRIA, ROLA
LADEIRA ABAIXO DA VIDA
VIVE O TEMPO NA LEMBRANÇA,
SAUDADE NA DESPEDIDA.

FERNANDIANA


NÃO SIGO DE MIM MEU SIMPLES RASTRO
MEU MEIO OU CONTORNOS,MEU CAMINHO,
QUE COM CERTEZA SE CRUZAM EM VERMELHO
COMO MALHA DE ARANHAS AMANHECIDAS,
EM ARRABALDES DISTANTES E ESCONDIDOS,
COM FOLHAGENS E LUZES CONFUNDINDO
MESCLAS DE NUVENS, QUE LEVES ME SUSTENTAM,
SEMPRE POR CIMA DO QUE PENSO OU SINTO.
CAVALO DOS ESPIRITOS DE VENTOS
E CHUVAS VOU SEGUINDO
E EM OCEANOS DE PEQUENOS BRILHOS
ME TRANSFORMO
QUANDO ASSIM ME QUEREM TRAVESTIDO,
QUANDO PRECISAM DO MEU VERDE
E MINHA CALMA
QUANDO SONHOS MAIS PROFUNDOS VÃO SURGINDO,
NÃO CONSEGUINDO REFLETIR SENTIDOS
OU VERDADES
EM ESPELHOS DE LUZES E DESTINOS.
NÃO É DE MIM MEU TRAÇO OU MEU VAZIO,
NEM MINHAS MÃOS MOLDAM CAMINHOS
PARA PÉS DE IDOLOS SÒZINHOS E ESQUECIDOS,
POIS NÃO ACARICIAM PEDRAS SEM VIDA
NEM PARTICIPAM, ACANHADAS QUE SÃO,
DE RITUAIS ANTIGOS
DE LUTA E FERTILIDADE.
REPIRO MUITO POUCO
PARA NÃO SABEREM DE MIM,
NEM O QUE SOU, NEM O QUE PENSO,
NEM DO QUE ME FAÇO.
MEM A MIM MESMO,
QUE EU NÃO ME SAIBA TANTO,
POIS SE PENSAR QUEM SOU
NÃO MAIS ME ENCONTRO.

REPENTE


E COMO FOI CALADO O MEU SORRISO
DIANTE DO PÊSO DA NOITE,
SEM TEMPO DE REFLETIR
OS IDEAIS ARQUITETADOS PELO TEMPO,
SEM TER QUE CONSTRUIR
UMA NOVA MANHÃ
OU TER QUE DISCUTIR COM MINHA SOMBRA,
COMO TANTAS VEZES FAÇO,
A EXISTÊNCIA EFÊMERA DA CONTINUIDADE.
E COMO FUI SINCERO EM NÃO SORRIR
E COMO FUI FELIZ EM NADA ME DIZER,
POIS DE UM QUASE NADA PASSAGEIRO
GÔTAS FORAM CAINDO
PESADAS E ARFANTES,
SORRATEIRAS E NEBULOSAS,
COBRINDO DOCEMENTE AS JANELAS
DO MEU CORPO,
VELANDO AS LABAREDAS DA MEMÓRIA,
REPOUSANDO NAS FANTASIAS
DOS SENTIDOS
E DE QUALQUER MANEIRA
FAZENDO NAUFRAGAR
AS MINHAS POUCAS GLORIAS.

soneto da reconstrução





Liberto da pústula do medo
Colocou a alma nua sobre a mesa
Mais que seguro de uma só certeza,
A de se manter liberto em tal segredo

De tantos lados apalpou seus sentimentos
Reconhecendo seus distintos ideais
Que foi redescobrindo vivos seus iguais
E recompondo a sua historia com momentos

Primeiro os sentimentos clandestinos
Em cada poro do seu corpo tatuados
Formando um labirinto de destinos,

Depois esses destinos fraudulentos
Distorcendo a razão, vem mutilados
Redefinir os seus fantasmas peregrinos.

domingo, 13 de maio de 2007

DOS CAMINHOS





Reduzir os sentimentos
A um quase nada,
Um quase morrer
Sem luz alguma,
Sem reflexos, sem cor,
Sem movimento,
Caminhar no meio
Da fumaça
Sem rumo certo,
Sem encanto algum.
Ir rasgando o peito vazio
Em tiras
Milimetricamente perfeitas
E com elas trançar calmamente
Uma escada
Que vai sempre ao alto,
Residência da esperança,
Bambeando as mãos
Vesgas de um sono profundo,
Ao subir,
Escorregando em lagrimas
Apressadas.
Tingir os olhos de pó,
Finalmente,
E chorar de verdade,
Como um passaro sem asas
Com medo da pedra,
Sem pernas ou sorrisos,
Sem braços à cruzar.
Trapézios reluzindo verdes
Em céus desbotados,
Suicida sem rede
Tentando voar
O seu não-pêso,
Holofotes, holofotes.
A corda bamba
É uma vida inteira
Passando
Sem interesses
E sem glorias,
De um lado ao outro
De abismos
Cavados lentos
Nas sombras da memória.

INUTIL ARCO-IRIS






CADA UM PREOCUPADO
COM SEUS PRÓPRIOS OLHOS
SE ESQUECE DOS CAMINHOS DA CHUVA,
ONDE UM ARCO-IRIS COLETIVO
PINTA SEMPRE DE LUZ
AS PEDRAS ESQUECIDAS NOS CAMINHOS.
CEGOS NÃO SENTEM DOR INTENSA
POIS DESCONHECEM
OS RUMOS DA DOR,
CEGOS NÃO CHORAM
POIS NÃO HÁ OLHOS
DE VER TRISTEZA,
NEM FRENTE NEM COSTA,
NEM ALTO NEM BAIXO,
CEGOS NEM SEQUER OUVEM
POIS É PRECISO DE OLHOS
PARA SE PODER OUVIR.
CEGOS NÃO SE IMPORTAM
COM PRESSÁGIOS DE TRISTEZA
POIS NÃO DESVENDAM SEMBLANTES,
NEM RECONHECEM LABIRINTOS.
NÃO SÃO CAPAZES DE SENTIR
OUTROS OLHOS PROXIMOS
QUE SOLUÇAM CALADOS
COMO ESPELHOS SEM REFLEXOS,
NEM PERCEBER BOCAS EM RITUS,
OU NARINAS DILATADAS
POR CONSTRICÇÕES DA ALMA.
NEM PERCEBER ANGUSTIAS,
NEM FAREJAR SAUDADE,
NEM PERCEBER UM BEIJO
OU UM AVISO DE MORTE.
CEGOS SÃO APENAS CEGOS,
IRRESPONSAVEIS AFETIVOS
PERDIDOS NA ESCURIDÃO.

COISAS DO MUNDO




Tudo o que é bom permanece
Constante e inalterado,
Pois o que é bom é belo,
E o que é belo, por si só,
Nunca desaparece.
Alguma memória fica,
Nem que não se queira,
No rastro do vento,
Prensado em poeira,
Num beijo ou perfume,
Saudade,
Sorriso de lua cheia,
Afeto guardado em versos,
Samba enredo da Mangueira,
Nas pinguelas e riachos,
Mato verde, terra fresca,
Pés de moleque nas ruas
De uma vila seresteira,
Assobios de Jobim
Debaixo da sombra amiga
Dos galhos da pitangueira,
Criança soltando pipa,
Cachorro correndo solto,
Ventania, claridade,
Rua molhada de chuva,
Mocidade, viola festeira.
Alguma rima encantada,
Luares brilhando estradas,
Ondas quebradas na areia.

DESEJOS




Quis dizer alguma coisa
Na boca do teu ouvido,
Alguma coisa assim rápida,
Coisa de amante escondido

Um breve roçar de beijo,
Um desejo pressentido,
Tudo bem abreviado
Num amor tão estendido

Quis lamber as tuas pálpebras,
Morder teu beijo lambido,
Arrepiar teu desejo,
Soltar teu tesão contido

E querendo fui levando
Meu estandarte estendido,
Ganhando teu corpo crespo
Por baixo do teu vestido.

OS OUTROS EUS





Cavalo do mundo
Assim padeço
Sofrendo dos pedaços
Que me tira o vento,
Alma sem previsão,
Compromissos pequenos,
Tijolo esfolado
No esmagar do tempo.
Eu não me quero
Ver assim,
Retrato aprumado de fundo,
Amorfo, sinistro, acanhado,
Mas simplesmente são.
Abusado, hiperativo e torto,
Veloz, desencontrado,
Infinito, oposto,
Dilúvio, mal encarado,
Estorvo.
Quero o melhor
Da arte do meu contrário,
Desentendido de tudo,
Psicopata fragilizado,
Semente de ventos,
Bateria da mangueira,
Varredor de rua,
Tarado.
Remador de barco a vela,
Adestrador de pipas,
Rei deposto, bastardo,
Sonhador sempre apressado,
Viola fora do saco,
Assobiador noturno,
Terno de linho riscado,
Malandro fora de ordem
Pela noite apaixonado.
Não quero mesmo de mim
Ser assim bem comportado,
Não quero pedir licença,
Me manter sempre centrado,
Ser luz do fundo do poço,
Sério, sizudo, fechado,
Fechadura de sorrisos
Ou primo de delegado.
Não quero fazer cabeças,
Não quero ser bem criado,
Ser homem de confiança,
Fiel, prestativo, solidário,
Hospitaleiro, afetivo, pausado,
Como tantos que ficaram
Na foz do mundo afogados.

QUINTO POEMA PARA A MULHER AMADA





Convivo bem
Com o teu rosto cansado,
Pois tuas rugas
Me lembram paixões
De alguns instantes atrás.
Te vejo
Com meus melhores olhos,
Guardados apenas
Para as minhas melhores pessoas,
As que sorriram comigo
Ou me fizeram crescer,
Caminhando ao meu lado.
Encosto a minha mão na tua
E vamos devagar
Tirando as pedras toscas do caminho,
E compreendo que ainda são uma só,
Face e contraface suaves
Que se completam no espelho da vida,
E se compreendem cúmplices,
Em carinhos imensos
Que só nós sabemos.
Só por isso
O meu olhar mora no teu
E aí descansa.

VILA DA FÉ




As ruas conviviam paralelas
E sem qualquer pressa,
Pois nunca se tornariam avenidas.
Cidade de poucas faces
E apelos pequenos,
Coraçőes ao alto,
Rumos moderados e serenos
Como virgulas,
Na sua simplicidade de espera.
Todo canto igual a qualquer canto,
Sonhos sem surpresas,
Ventos sem paixőes.
Nada de fadigas inúteis
Nesse pequeno mundo
Afogado em ilhas
Nas sombras dos morros,
Vidas leves como cascalho
Quebrado e miúdo,
Com jeito de orvalho
Em tapetes estendidos,
Palavras vazias
Engolidas na nascente,
Solidăo de bicho.
Vila de fé, năo de vida,
Espaço de almas partidas,
Perdas, insônias, ausęncias,
Dores fiéis năo resolvidas,
Balbuciar de terços
Nos văos das portas
Só entreabertas,
Como as almas,
Dentes falhos, bocas murchas
Em assobios constantes
Cortando a musica dos grilos.
A prece alimentando as certezas
E pondo esperança nos olhos,
Caminhos desimpedidos, glórias,
Carne de cada cristo
Em văo crucificado.

VIDA EM CONSTRUÇÃO






Andares, pilares, vigas,concreto,
Fios que pulsam como artérias,
Conexões à extremos,
Andaimes frágeis,túneis escuros,
Projetos intermináveis e obscuros.
Vida que se faz à passo,
À espera e compasso,
Cabeça pegando fogo
Girando torta no espaço,
Prédios subindo, luz fulgurando,
A aurora do mundo
Em festa se adiantando,
Parado sempre na vida
Pensando, pensando,
Perdido em cálculos,
Sonhos mágicos levantando.
É a massa é o moinho
É a pedra polida,
Talhada, sofrida,
Calada, moldada, moída,
É o poste da esquina,
É o caminho rezado
Sem contrapartida.
É o certo ou o certo,
É o puro destino
Por nada mudado
Em seu certo sentido,
É o mundo formado
Em formato distinto,
Trabalho calado,
Parido, entalhado,
Forjado na busca ,
Na fé e no instinto,
É um deus arrojado,
Um criador faminto.

O PROFETA





Como apagar a revolta enraizada
Em veias desnutridas?
E abafar tambores alcoolizados,
Que em ritmo insano
Tingem de medo as madrugadas?
Como restaurar festas abandonadas
Onde ritmos canibais confundidos com gritos
Permanecem incrustados como cracas
Em paredes diluídas,
Onde olhares de sol e fantasia
Já projetaram um dia
Imagens de sonho e de alegria ?
Mãos fantasmagóricas e perdidas
Vem como desertos brancos
Dedilhando pianos sem teclas,
Como musgo seco que esfarela
Entre areias e pedras
Sem ruído ou dor,
Buscando leitos de sombras
Onde esconder a sua morte.


Vem como universos perdidos em noites frias
Carregando imagens do passado e do futuro
Para sempre refletidas nas mãos espalmadas,
Palmas caladas,
Como parte do caos que se refaz
Na sua porção mais doce e delicada,
Como cinzas de pardais
Que adubam roseiras vermelhas
Enfileiradas nas beiradas dos muros,
Como fluido de luas cheias
Que carregam maldições esquecidas
E que se depositam lentas
Por sobre as virtudes dos homens.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

BOA VIZINHANÇA


BAILAR DE SAPATOS SOBRE OS MORTOS
EM TAPÊTES DE FLORES DISTINGUIDO,
PRIMAVERAS DE SANGUE DESMANCHADAS
EM TRAMAS,
COMO COLCHAS MACIAS
AOS MEUS PÉS ESTENDIDAS.
NAVEGAR NA DOR
DOS QUE FICARAM AO LADO
OLHANDO PERPLEXOS, ATURDIDOS,
AS MADRUGADAS DOCES QUE FUGIAM,
SEM NUNCA SABER QUEM FORAM,
PERDIDOS, PERDIDOS..
NÁUFRAGOS DA CRIAÇÃO,
COLAR SEM FIO.

MEUS DIAS


EU SEMPRE CHORO
DE MANHÃ,
POR COMEÇAR O DIA,
POIS NUNCA SEI
SE BOM OU MAU,
SE ALEGRE OU TRISTE,
OU PURA TEIMOSIA.
POR PREVENÇÃO EU CHORO
E ME PROTEJO
SABE-SE LÁ DO QUE,
DE QUEM,
TALVEZ SÓ COREOGRAFIA,
CAIO NA VIDA ESCALDADO
E ME COLOCO NA LIDA,
SORRATEIRO E COMEDIDO
PRONTO À QUALQUER VALENTIA.

terça-feira, 8 de maio de 2007

DAS BUNDAS


A BUNDA É MUITO MAIS
DO QUE UM SENTIMENTO
PENETRÁVEL,
É O CÉU ESPLÊNDIDO
NUM ÚNICO MOMENTO,
UM GOZO SEM TOCAR,
UM VENTO.
VENTURA QUE PASSA
E PERMANECE LEVE, FLEXIVEL
COMO UMA PRANCHA DE SURF
DESFILANDO ALEGRE
SOBRE AS ONDAS.
MARIA-MOLE, ALGODÃO DOCE,
MEIO QUE VAI PARA CIMA
MEIO QUE VAI PARA BAIXO,
UM TANTO FUGIDIA,
UM TANTO BUSCADORA,
ESPUMA QUE SE REFAZ FELIZ
NO CÉU DA BOCA.
CARNE LIQUIDA
MOLDADA EM VALSAS,
CHORINHOS DE FLAUTA,
PEDAÇO DE FRUTA
SEMPRE MADURA,
ESPELHO DA ALMA,
BENZIMENTO QUE CURA,
MAÇÃ.

SAUDADE


A GENTE VIVE SÓ DE SAUDADE
NEM QUE NÃO SE QUEIRA,
O ONTEM QUE JÁ DOI
NÃO SE PROCURA, EXISTE,
E PERMANECE INTENSO
PORQUE TRISTE.
E VEM A NOITE E FICA
E VIRA O DIA,
O ANO, A VIDA,
A SAUDADE VIRA TUDO
E NADA VIRA,
NEM MESMO MORRER SE MORRE,
NADA ALIVIA.

domingo, 6 de maio de 2007

O OLHAR DO HOMEM


TE VER PASSAR
É COMO VER PASSAR UM RIO
POR SOBRE PEDRAS BRUTAS
A SEREM POLIDAS.
PÁSSAROS QUE SOMOS,
INCONSTANTES MORADORES
DAS BEIRADAS E REMANSOS,
OLHANDO LONGE
NAS DISTÂNCIAS
FEITAS DENTRO DE NÓS,
À NOSSA ALEGRIA
OU AO NOSSO DESESPERO.
CRESCEMOS FUGITIVOS
DE ASAS LONGAS,
CRESCEMOS VENTO
QUE FAZ CURVAS ANTIGAS
E VOLTA SEMPRE
PARA DENTRO DE SI MESMO,
CANSADO DE PROCURAR CAMINHOS.
CRESCEMOS RIO
QUE O PÁSSARO GIGANTE PERCORRE
ESPELHADO NAS CORREDEIRAS,
CRECEMOS PAIXÃO
DE PEDRA BRUTA
FERINDO A MACIEZ DO RIO.

AMIGOS


AMIGOS NEM SEMPRE VEM
NEM VÃO DE TODO,
OU FICAM EM NOSSOS ESPELHOS
OU NOS CARREGAM
NO BOLSO DOS SEUS OLHOS.
POR ISSO INUTIL SENTIR AUSÊNCIAS
OU EXCITAR OS SONHOS
COM SEUS RISOS PRÓXIMOS,
AMIGOS APENAS PERMANECEMOS
O QUE SOMOS.
ESTANDO OU NÃO ESTANDO
ESTAMOS,
INDIVIZÍVEIS E SÓLIDOS
NA PROPOSTA UNICA DE SER,
SEM MESMO PERCEBER QUE SOMOS,
QUE NOSSOS SENTIMENTOS
DORES E ALEGRIAS
SÃO SEMPRE UM,
PORQUE ASSIM FOI DISPOSTO,
E NADA DAQUILO QUE É DISPOSTO
SE DESMANCHA,
POR ISSO O CÉU E A TERRA
COMPLEMENTAM UMA PAISAGEM ÚNICA,
APESAR DOS VENTOS.

CABEÇA DE VENTO


CAMINHO ENTRE AIS TÃO SEM CUIDADO
EM BUSCA DE RECURSOS MARGINAIS
QUE NÃO ME VEJO ABRAÇANDO AS MINHAS SINAS
QUE NÃO ME VEJO SUPRIR MEUS IDEAIS

PISANDO TRANQUILO EM VERDES LIMOS
COMO VARANDAS QUE SE ABREM AOS PARDAIS
SIGO A ROTA DOS SANTOS PEREGRINOS
QUE DESFILAM SOBRE NUVENS NOS QUINTAIS

E VOU DISTANTE TRAÇANDO OS MEUS CAMINHOS
COMO VENTO BRINCANDO ENTRE OS VARAIS
SEM ME DAR CONTA DE MEDOS OU DESTINOS
BUSCANDO AMORES EM AMANTES CASUAIS.

sábado, 5 de maio de 2007

NOSSOS CAMINHOS

ATÉ QUE PONTO UM DEUS VOLÁTIL
COSTURA ESPERANÇAS
EM NOSSOS CAMINHOS DE SEDA?
COM AGULHAS MILAGROSAS QUE NÃO VEMOS,
COM DEDOS DE PÉTALAS QUE NUNCA SENTIMOS,
INTOXICADOS PELO INCENSO DOCE
QUE SOBE DAS NOSSAS MÃOS EM PRECE.
SÓ PEDIMOS MUITO PORQUE SOFREMOS SEMPRE,
POR ISSO, MESMO SEM ACREDITAR PEDIMOS,
POIS A ILUSÃO É COMO MEL DERRAMADO
NAS NOSSAS CHAGAS QUE PRECISAM DE BEIJOS,
BRISA DE ALIVIO NA NOSSA DOR IMATURA
QUE DESBRAVA OCEANOS PROFUNDOS DA ALMA,
ONDE MANTEMOS AFOGADOS
O NOSSO DESESPERO, A NOSSA INDIGNAÇÃO,
A NOSSA CÓLERA,
E O MUITO POUCO DO QUE NOS RESTOU
DE ESPERANÇA,
ONDE AS NOSSAS METADES MUTILADAS
ESPERAM IMPASSÍVEIS PELO DOM DA RECONCILIAÇÃO
COM O ETERNO.
MELHOR TALVEZ O ENGANO DE ESPERAR SEMPRE
DO QUE A CERTEZA IMPURA DO NADA,
CONFORTAR A ALMA COM A FÉ QUE A NOSSA DOR MERECE,
CONTORNAR O EQUILIBRIO FRÁGIL DA COERÊNCIA
E TROCAR, BERGANHAR, MENTIR,
E PEDIR, PEDIR INSISTENTEMENTE
COM O POUCO QUERER QUE COMO HOMENS
JÁ NEM QUERER SABEMOS,
E FINGIR OUVIR, E VER O NUNCA VISTO,
REALIZAR O QUASE IMPOSSIVEL
DE PROCLAMAR AOS CÉUS TODA A FANTASIA
DE PODER E DE GLORIA,
E DEPOIS MANSOS CAMINHAR
E CUMPRIR O SEMPRE
DETERMINADO AO HOMEM COMO META.

EU EM VOCE


PENSAMENTOS DESATENTOS
CRIAM VERDADES APARENTES,
LEVES,
COMO SORRISOS DESPRETENCIOSOS.
PORISSO EU PARO SÉRIO
E TE ENQUADRO,
E PENETRO EM TEUS OLHOS
COMO UMA FACA NO QUEIJO,
PRECISO E CALCULADO MOVIMENTO
DE QUEM CHEGA FORASTEIRO,
E DEVAGAR VOU CORTANDO,
CORTANDO TEU NEVOEIRO,
COMO QUEM VIVE A SAUDADE
DE ENCONTRAR UM MUNDO INTEIRO.
PRIMEIRO A RETINA PURA,
DOCE BARREIRA SEM MEDOS,
DEPOIS O FUNDO LACRADO
ONDE SEM QUERER
CHEGUEI PRIMEIRO,
DESFIZ TUA NÉVOA ESCURA
E ME ENCOSTEI NO TEU CHEIRO,
DEVAGAR TE PENETRANDO
ATÉ TER TEU CORPO INTEIRO.

ESPELHO

CUIDO DO SOL DOS MEUS OLHOS
QUE BUSCAM A BELEZA
COMO DESTINO DO INSTINTO,
FARO DE FERA, CHUVA QUE ESPERA
TRAZER FEBRE MORNA,
COLCHA MACIA, CHÁ DE ACONCHEGO,
TOTEM SEM BRILHO E SEM RETOQUE
COMO UM FAROL QUE MOSTRA E NUNCA GUIA.
ESTRANHOS SABERES
OS DAQUELES QUE SABEM,
IMPORTANTES E DERRADEIROS,
DESDE O PRIMEIRO QUERER
NÃO CONSENTIDO,
DESDE A NEGAÇÃO DO MUNDO
COMO BERÇO
ATÉ A REALIZAÇÃO VULGAR
DE TODOS OS SENTIDOS.
TEMPO QUE ESCORRE AFLITO
EM BUSCA DA VERDADE,
TEMPO QUE CORRE SEMPRE
DA VERDADE QUE SE ESCONDE.
COMPREENDER O QUERER
NÃO É NADA DIVERTIDO,
NÃO COMPREENDER É ANULAR
O TEMPO E O SENTIDO.
ESTRANHOS OS CAMINHOS PERCORRIDOS,
PERDIDOS ENTRE SONHOS MALFADADOS,
BUSCANDO EM VÃO TESÕES DESCONHECIDOS.

AS TUAS QUEIXAS


SE VOCÊ BEBE A POBREZA,
INCERTA MANIFESTAÇÃO
DESSE DESTINO INGRATO,
É PORQUE A VIDA
TE NEGOU O FATO
DE SER O MAIS FELIZ
DA NATUREZA,
E BASEADO NA RAZÃO
E NA CERTEZA,
É QUE TUA PARTE
DE PRAZERES E ALEGRIAS
FOI DE DADO DE VEZ
NA MOCIDADE,
E PROCURANDO AGORA
PELAS SOMBRAS
MIGALHAS DE EUFORIA
E VAIDADE,
SÓ NO COPO
AINDA TE RESTA ALGUM CONSOLO,
ULTIMO GOLE
DESSA TAL FELICIDADE.

LUA CHEIA

SUBI NUM TELHADO BRANCO
ONDE GATOS VADIOS
SONHAVAM COM PÁSSAROS LENTOS
E LUAS CLARAS.
CORPO ESTENDIDO
EM ETERNA PREGUIÇA,
DESEJEI PALAVRAS
COMO PÁSSAROS VOANDO,
BELOS OU ESTRANHOS,
COM QUALIDADES
DE VENTO OU DE PEDRA.
PALAVRAS QUE NASCEM LIVRES
E VELEJAM LIVRES EM SEU VÔO,
PARALELO E RASANTE,
SONDANDO AS INTENÇÕES DA ALMA.
VOAR SEM DESTINO DISTINTO
EM BUSCA DE POUSOS BREVES,
COREOGRAFANDO BALÉS AÉREOS
NAS ESQUINAS FALHAS DO TEMPO,
FORMANDO SENTENÇAS
DE VIDA E DE MORTE,
ENTRE O QUASE E O NUNCA,
MARCADAS À FÔGO
NOS DESEJOS DOS HOMENS,
COMO UMA LUA QUASE CHEIA
QUE SORRI DA NOITE
TÃO DISTANTE E TÃO PRÓXIMA.

DIA A DIA

NEM QUE SE PROCURE
EM MADRUGADAS
OU MAIS UM DIA
SE ENCONTRARÁ VESTIGIO
DESSE NOSSO TEMPO,
QUE NASCE DE MANHÃ
E MORRE A TARDE
COMO UM VENTO QUE SOPRA
E NÃO SE SABE
POR ONDE ANDOU
E SE PERDEU O VENTO.
COMO SE NÃO FOSSE PERCEBIDA
A HISTORIA
OU A MEDIDA DO TEMPO,
COMO SE SÓ O INSTANTE
FOSSE FORTE
E MERECESSE ALENTO,
COMO SE NADA
FOSSE TÃO IMPORTANTE
NESTA VIDA
E SE VIVESSE SÓ DE ALHEAMENTO,
DESCONCERTANTE MEMÓRIA DO NADA,
DESTINO TINGIDO,
ATORDOADO MOMENTO.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

REFLEXÃO


A ARTE CURA?
NÃO. A ARTE LIBERTA.
SÓ A LIBERDADE CURA.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

RAPIDINHA

COMO NUMA DANÇA
MEUS DEDOS COSTURAM VELOZMENTE
VERSOS SOLTOS NO ESPAÇO.
NÃO POSSO DAR CHANCE AO TEMPO
QUE OS ROUBA E DILUI,
DEIXANDO APENAS RETICÊNCIAS
NA MINHA MEMÓRIA.

PASTORIL


O VERDE CORTA A MINHA VISTA
EM FATIAS,
NAS VÁRIAS TONALIDADES
DA PAISAGEM POR QUE PASSO.
ALGUMAS CASAS, BARRANCOS,
ANIMAIS NO CIO PELO PASTO,
E O VERDE TEMPERANDO TUDO,
RISOS CORTANDO O ESPAÇO.
É A PRIMAVERA CHEGANDO
COMO UM VESTIDO DE FESTA,
AZUL, VERMELHO, AMARELO,
TINGINDO DE LUZES OS CAMINHOS,
PERFUMANDO DE AMORES OS REGATOS.

ADORMECER

O CÉU É MINHA CAMA,
ONDE CANÇÕES SONOLENTAS
VÃO SURGINDO DO NADA
E COBRINDO MEU CORPO,
COMO LIRIOS
SEMEADOS NAS BORDAS
DOS LENÇOIS.
AS TUAS MÃOS PERCORRENDO
A MINHA CALMA ADORMECIDA
VÃO TATUANDO VERSOS ANTIGOS
NA MINHA PELE CANSADA,
PERPETUANDO ALÍ A NOSSA HISTORIA.
TEU SORRISO
ENCONTRA O MEU SONHO
E ME PROTEGE
DOS DEMONIOS DA NOITE,
ENQUANTO TRAÇO CAMINHOS DE ENTREGA
E TE ABRAÇO,
E ME DEIXO LEVAR POR ESSE RIO.

terça-feira, 1 de maio de 2007

POEMA BOBINHO


PENSANDO EM VOCÊ
GUARDEI AS MINHAS ASAS
EM LUGAR BEM DISTANTE,
ONDE O MEU QUERER
NÃO CHEGA MAIS.
ESCONDI OS MEUS DESENHOS,
A BOLA, OS BRINQUEDOS SEM GRAÇA,
DOEI PARA ALGUÉM
OS MEUS SONHOS MAIS LOUCOS.
PENSANDO EM VOCÊ
TIVE QUE CRESCER TÃO DEPRESSA
QUE ATÉ ME ESQUECI
DE TROCAR DE SAPATOS,
MAS QUEM PRECISA DE SAPATOS
QUANDO SE PISA EM NUVENS?
QUEM É QUE SE EXERCITA EM FANTASIAS
QUANDO O TEU SORRISO ESTÁ TÃO PERTO?
PENSANDO EM VOCÊ
NÃO VÍ MAIS EU EM MIM,
PORQUE ALGUMA COISA MAIOR ACONTECEU
E ME TRANSFORMOU ENTÃO EM NÓS,
E POR MAIS QUE EU QUIZESSE
NUNCA MAIS SUPORTARIA
O VAZIO DE NÃO SER VOCÊ.

RAPIDINHA


Não ter memória é bom,
é como nascer a cada momento
tendo que revisitar
o que já visto,
se surpreender
com a surprêsa de não saber
nem mêsmo de sí,
quanto mais do mundo.