domingo, 13 de maio de 2007

OS OUTROS EUS





Cavalo do mundo
Assim padeço
Sofrendo dos pedaços
Que me tira o vento,
Alma sem previsão,
Compromissos pequenos,
Tijolo esfolado
No esmagar do tempo.
Eu não me quero
Ver assim,
Retrato aprumado de fundo,
Amorfo, sinistro, acanhado,
Mas simplesmente são.
Abusado, hiperativo e torto,
Veloz, desencontrado,
Infinito, oposto,
Dilúvio, mal encarado,
Estorvo.
Quero o melhor
Da arte do meu contrário,
Desentendido de tudo,
Psicopata fragilizado,
Semente de ventos,
Bateria da mangueira,
Varredor de rua,
Tarado.
Remador de barco a vela,
Adestrador de pipas,
Rei deposto, bastardo,
Sonhador sempre apressado,
Viola fora do saco,
Assobiador noturno,
Terno de linho riscado,
Malandro fora de ordem
Pela noite apaixonado.
Não quero mesmo de mim
Ser assim bem comportado,
Não quero pedir licença,
Me manter sempre centrado,
Ser luz do fundo do poço,
Sério, sizudo, fechado,
Fechadura de sorrisos
Ou primo de delegado.
Não quero fazer cabeças,
Não quero ser bem criado,
Ser homem de confiança,
Fiel, prestativo, solidário,
Hospitaleiro, afetivo, pausado,
Como tantos que ficaram
Na foz do mundo afogados.

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