quarta-feira, 29 de agosto de 2007

RECIRCULANDO O NÓ





Entre o fazer e o não fazer
Está a asa de um pássaro,
Sem seu vôo,
Descuido da razão
Entre o saber e o fato,
E como nada descrito
Encontra-se fadado ao ato
Pergunta-se, às vezes tolamente,
Como encurtar o espaço
Que pode haver entre a ilusão
Da realização e o embaraço
De arbitrar o indistinto,
De formatar o insensato.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

CANTIGA DE NINAR O AMANHECER

( PARA VERIDIANA, UM POEMINHA DE SAUDADE)

Dorme
Porque é cedo ainda
Para não dormir,
Não á nada lá fora,
Acredite,
Melhor do que o gosto
Do sonho em teu sorriso,
Maior do que o teu silêncio
Que transcende as falas.
Encosta os olhos e dorme,
Tão serenamente
Como só se faz algumas vezes
Nesta vida,
Como aquele beijo
Que em si dado alegra o dia
E nada mais se espera dele
Senão risos.
Encanta os olhos e dorme,
Vai menina,
Buscar nas flautas
O prazer das descobertas
Que te aconchegam os sonhos,
Pensamentos, fantasias,
Brinca de espera por um tempo
E de criança ainda,
Brinca de ninar a madrugada
Enquanto a noite vigia,
E de ouvir o vento que vem vindo,
Que é só um vento passando,
Ouve,
Dizendo dorme, dorme,
Eu sou teu berço
E tua estrela-guia.

sábado, 25 de agosto de 2007

O ULTIMO PECADO


A MEDIOCRIDADE ME ENCANTA
TANTO QUANTO UMA SAPA
SEDUZIDA,
COMO AQUELAS FOLHAS
QUE NO OUTONO
AMARELAM E CAEM,
SÓ POR SER OUTONO,
OU SÓ PÓR SEREM FOLHAS.
A TENTATIVA DE SER
É UM VENTO MARGINAL
QUE SOPRA FRIO E ESPALHA
O DESEJO FEROZ DE PERTENCER,
QUE É TÃO INTENSO
E TÃO PRETENCIOSO
QUANTO UM GRITO,
QUE NOS QUER DESPERTOS
E CATIVOS.
VIVER É UM ATO CONTINUO
DE TANTO FAZ,
CONTANTO QUE CONVENÇA,
BUQUÊ DE MATIZES TRISTES
SEM CORES DEFINIDAS
DE SONHOS DOURADOS
QUE SE BORRAM AO TEMPO,
CAMINHOS DESORDENADOS
SEMEADOS DE DESTINOS
SUPOSTAMENTE ORDENADOS
COMO UMA PLANTAÇÃO DE LIRIOS.
NÃO SER É O GRANDE PECADO
QUE CAMINHA SOZINHO

A CHEGADA


EU SOU A MINHA SALA DE ESPERA
CHEIA DE LIVROS MANSOS E POESIAS GUARDADAS,
TRANQUILA, EM PERENE SILÊNCIO,
ENTRE A PENUMBRA E O ENCANTO DO VAZIO.

SENTO E ESPERO POR MIM, NÃO TÃO DISTANTE
ESTOU QUE NÃO POSSA PRESSENTIR MINHA CHEGADA,
DESCANSO MEUS PÉS COMO CABEÇAS CANSADAS
E PREPARO MEU COLO PARA ESTREITAR O MEU ABRAÇO

ENCONTRO ENTÃO COMIGO E ME CONSOLO
COMO SEMPRE, ME ABRINDO E ME ABRIGANDO,
COBRINDO DE VELUDO O MEU CANSAÇO

DOU-ME ENTÃO O MELHOR DO MEU CONFORTO,
ANINHANDO-ME EM MIM EU ADORMEÇO
ME FAZENDO FELIZ AO MEU COMPASSO.

VIVENDO E INDO


NÃO CAMINHO POR PEDRAS
QUE MACHUCAM MEUS PÉS,
NEM GUARDO SAUDADES VAZIAS.
LEMBRANÇAS VOU DISPERSANDO
COMO NOITES, COMO DIAS,
VOU DEIXANDO MINHAS QUEIXAS
NOS VÃOS DAS MOITAS, NO VENTO,
QUE DILUEM DOR E MÁGUA
NOS MARES DO ESQUECIMENTO.
VOU CONSTRUINDO EM ATALHOS
A CORRENTEZA DOS RIOS,
QUE ME LEVAM, QUE ME LAVAM,
QUE ME SACIAM A SEDE,
ONDE TROCO A PELE VELHA
POR UM NOVO ANDAR ARISCO,
ONDE NADA SE ASSEMELHA
AO MEU ANTIGO SORRISO.
NO MEU DIA, NO MEU TEMPO,
INSTANTES SÓ DE PASSAGEM,
PONTE, CORRENTE, VERDADE,
CANAIS DE SINCERIDADE,
REAIS MELHORES SEMENTES.

LUZES APAGADAS


A SOMBRA DA VELA
NUMA MÃO ADORMECIDA
LEMBRA SAUDADE,
COMO UM RITUAL
SEM PRESENÇAS,
COMO MUSICA
SEM ECO
EM TAMBORES
DISTANTES.
SOMOS SEMPRE
TIMIDAS IMENSIDÕES
E VAZIOS,
VÔOS SEM POUSO
E SEM DIREÇÃO
DE VENTOS,
COMO SE NADA SUPRISSE
AS VERDADES
ADORMECIDAS,
COMO SE AS GOTAS
DE UM COPO DE VINHO
FOSSEM COMO CHORO
DE LEMBRANÇAS
EM ESTÉREIS
DESERTOS DE PAPEL.
VEJO MEU SONHO
COMO UM DIA,
À LUZ DE UMA VELA,
SEMPRE EM SOMBRAS.

BOA VIZINHANÇA


Bailar de sapatos sobre os mortos
em tapête de flores distinguido,
primaveras de sangue
desmanchadas em tramas
como colchas macias
aos meus pés estendidas.
Navegar na dor dos que ficaram
sempre ao lado
olhando perplexos, aturdidos,
a madrugada doce que fugia,
sem nunca saber quem foram,
perdidos, perdidos,
náufragos da criação, colar sem fio.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

SABOR DA TERRA





A chuva cai sobre o mato
E cobre a terra em mantas,
Tremor de ventos
Desamarrando velas
Construídas de flores
De paineira e juncos.
Inverno inquieto,
Mês dessemelhante,
Não prosperando frios
E sim águas
Não acendendo fogos
Mas sustento.
O verde espera intenso
O seu parto
Nos olhos da mão
Do homem,
Criança sorri inteira
No sorriso do pai,
Que investe
O pé na lama
E se aquieta
E em calma se proclama
Novamente homem,
Novamente chama.

DAS PORRADAS


MORRER CALADO É INSENSATO
TANTO QUANTO NUNCA TER VIVIDO,
NAUFRAGADO DE SÍ,NÃO DIGERIDO,
MAL ACABADO, FRUSTRADO, FUDIDO.

QUANDO A VÊZ







A espera é uma boca profunda
Com degraus de pedra,
Silencioso percorrer
De indistintas rotas
Que retrocedem
Ao inicio de tudo,
Em penosa lentidão
De caracóis sem rumo.
Há sempre um quase
Interrompendo os labirintos,
Suores frios
Entalhando faces,
Velas sem vento, insônia,
Sempre um coração alongado
Em si batendo,
Surdo, surdo,
Gritando quieto
Ao perceber o tempo.
Há sempre um que de morte,
Um desaviso,
Presságio de nadas
Soltos nos vazios,
Qualquer coisa de desequilíbrio,
De deixar de ser, de nicho,
Paredes brancas sem marcas,
Sem moscas,
Sem qualquer sentido.