
DO IR VIVENDO
Não combina realmente
A morte com a vida,
siamesas atreladas
por um fio de espelho,
desconjuntadas em seu peso,
tortas,
tão desiguais quanto uma pá
e um copo
descompondo a natureza.
A morte a mesma coisa de sempre:
Sem graça, artificial, destoante,
Tão pequena e sem sentido
Quanto um poço sem água.
A morte é seca.
A vida não.
Tudo cabe bem arrolhado
Em sua grandeza desmedida,
Até o sem sentido e o tolo,
Sabendo que o grande
Pode ser imensamente maior
Do que sempre aparenta,
Assim como um abraço
Quando existe o querer,
Assim como o pensar
Quando persiste a saudade.
A morte é véu
Que encobre um resto de noite
Encabulada de ser,
Uma pouca coisa que vem
E logo passa
Deixando o pó suspenso
E a voz calada.
Vida é assobio que cresce
No vento,
Que alegra e incomoda
Penetrando pelos vãos,
Criança grande que só brinca,
Como uma pipa colorida
Num céu sempre azul.


