terça-feira, 25 de setembro de 2007

DO IR VIVENDO



DO IR VIVENDO


Não combina realmente
A morte com a vida,
siamesas atreladas
por um fio de espelho,
desconjuntadas em seu peso,
tortas,
tão desiguais quanto uma pá
e um copo
descompondo a natureza.
A morte a mesma coisa de sempre:
Sem graça, artificial, destoante,
Tão pequena e sem sentido
Quanto um poço sem água.
A morte é seca.
A vida não.
Tudo cabe bem arrolhado
Em sua grandeza desmedida,
Até o sem sentido e o tolo,
Sabendo que o grande
Pode ser imensamente maior
Do que sempre aparenta,
Assim como um abraço
Quando existe o querer,
Assim como o pensar
Quando persiste a saudade.
A morte é véu
Que encobre um resto de noite
Encabulada de ser,
Uma pouca coisa que vem
E logo passa
Deixando o pó suspenso
E a voz calada.
Vida é assobio que cresce
No vento,
Que alegra e incomoda
Penetrando pelos vãos,
Criança grande que só brinca,
Como uma pipa colorida
Num céu sempre azul.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

O FECHAR DAS CORTINAS





Parei de falar de todo eu
Comigo.
Descontada a moagem
Do espírito
Desnecessária e afoita
E já exposto infiel
Ao ato da ressurreição
Da carne,
Venho deixando aos poucos
De me buscar em mim,
Como uma gralha surrada,
Quase como uma descoberta
Tardia e sonolenta
De que o mundo existe inteiro
Além dos meus pés,
Que se medidos
Não tem o peso de um pão.
Por isso venho emperrando
Essas vertigens doentias
De me buscar em tudo
Onde nunca estive,
Como à um sol já posto,
Não por desquerer,
Nem por mais ou menos
Necessário ou justo.
Na verdade foram anos
Sem qualquer sentido
Visto que só por viver
A gente sem querer se acha,
E vai até o fim
Tentando esquecer o já sabido.
Vai-se o eu, ficam-se os nós.

RETROCONHECER





Não me abstraio,
Aponto
Labirintos ou velas
Que deslizam caminhos
Onde ainda não andei,
À ponto de gargalhar
De sombras passageiras,
Falando com as mãos justas
Em velocidade de estrela.
E fósforos vão repetindo
O efêmero do ver/não ver,
Luz mais rápida que os olhos
Que nunca descobrem,
Vidro quebrado,
Instinto no faro
Do perigo eminente,
Ponta de faca picando
O dedo que aponta,
Pedindo que não seja revelado
O óbvio,
Que nunca sejam cumpridas
Profecias de desamor ou perdas,
Que caiam gota a gota
Todas as cachoeiras do universo,
Preparando o tempo das vozes
Que murmuram ao longe
Caricias,
E trazem perfumes
De encontros secretos e vazios.