sexta-feira, 19 de outubro de 2007

CANSADO DA BRIGA





Em desespero
Doemo-nos aos famintos
Como ultima migalha
De uma ceia penitente
Que se arrasta neste mundo
Inverso e sem sentido,
Em pedaços regulares, sempre,
Obedecendo aos códigos estabelecidos,
Em meias metades configurados
E em múltiplas versões diluídos.
Como sementes estéreis,
Como pasmos objetos indefinidos,
Como adubo inorgânico de vida
Seremos ingeridos,
Com a maquiagem tosca
Que nos cabe,
Com todos os nossos incapazes desabrigos..
Vamos ao pó do ultimo grito
Sem renascer, sem reflexos,
Puras esferas ocas no infinito.

ORAÇÃO PELO HOMEM




Dai-me Senhor
A graça do bom senso
Para que o dia de hoje dignifique
O ato simples de viver.
Que eu perceba de forma simétrica
O claro e o escuro
Das almas passageiras
E suas intenções fugidias,
Que me saltem aos olhos
As distorções e as virtudes
Dos meus semelhantes,
Para que eu encontre
Cada vez mais facilmente
O equilíbrio do reconhecimento,
E formate assim o entender
Nem sempre explicito ou estável
Das minhas imagens.
Que eu venha a crescer
Sem pensar em criticar ou julgar
Tudo aquilo que à mim não cabe
E nem se ajusta.
Dai-me Senhor a compreensão exata
Daquilo que sou
Para que eu pondere de forma justa
A direção dos meus atos,
Para que eu viva em paz
E não fomente ódios ou discórdias
Nem gere inseguranças ou pesares.
Que eu consiga apenas o equilíbrio
Entre o pensar e o agir
E reconheça em mim
A forma imperfeita de todos os seres,
Com meus mesmos vícios e atitudes,
Os mesmos códigos
E as mesmas intenções de acerto.

DE UMA JANELA AO SUL


O POR DO SOL É DESCANSO,
REPOUSO, REMANSO.
NO GUAÍBA O POR DO SOL
É CAVALGADA E ACALANTO,
O ENCONTRO DO QUIETO
DAS AGUAS CRESPAS
DE VENTO COM O MANSO.




O PENSAR CALADO DE ESPANTO,
O MESCLAR DO VERMELHO
COM O BRANCO
DIZENDO: CALMA,
VEM MAIS PELA FRENTE,
NÃO TEM TAMANHO A COR
DO NOSSO ENCANTO.
A LUZ DO AZUL, O VERDE NO HOMEM,
A SOMBRA DO BARCO, A VARANDA,
SÃO MELODIAS DE ASSOBIAR
POR NADA,
DE DANÇAR NAS NUVENS,
DE ACORDAR NAS PRAIAS,
DE BRINDAR COM AS GARÇAS
O BANIR DOS PRANTOS.
OS CAMINHOS DO POETA
SÃO OS OLHOS
QUE DE NOITE, EM SILÊNCIO,
CONSTROEM PONTES
ONDE PELAS MANHÃS A VIDA PASSA.
PORTO ALEGRE FICA
EM MEU CORAÇÃO COMO ARGAMASSA.

( A. SOARES NETO )

( PRAIA DE BELAS, 12/10/2007 )

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

DAS PARTIDAS


PARA LUIS FERNANDO,MEU EU DISTANTE.


Não te pergunto da tua partida
Porque dentro de mim
Não permanecem mais
Tuas chegadas.
Façamos um acordo rápido
De justo amor contido:
Você não olha mais
Para os meus olhos
E eu não penetro nos teus,
Simples assim,
Pois não pode haver cumplicidade
Nas ausências, nem permissões,
Não pode haver tremor
Que traia
Um proceder de afeto umbilical,
Um rito,
Não pode haver saudade satisfeita
Nem emoção feroz que não se corrija,
Que sem querer desnude,
Que só contemple e assista.
Vai então bem devagar, calado,
Fugido, escondido, exilado,
Vai devagar
Sem que eu te veja,
Não bata a porta, não sorria.
Nem sequer respire,
Pois ao mais leve sopro teu
Meu coração acorda
E fica tão vazio,
Te pedindo que espere,
Que espere tanto
Que não partas nunca,
Nem por um instante,
Que sopre mais aos meus ouvidos
O teu riso
E que desfie ante meus olhos
Tuas farsas.
Deixa meus sentidos fechados,
E meu querer distante,
Vai
Porque é teu destino ir,
Mas não me acorde.