terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

CLAUDIANA




Construir estradas paralelas
Para caminharmos sempre juntos,
É como nos tecemos sobre um tempo
Que nos fez semelhantes
E nunca nada nos cobrou por isso.
Os leitos profundos nós os fizemos
Bordados de seda e espinhos,
Tapete estendido sobre rios e mares
Onde os pés que caminham são de ferro,
Deixando lisas as pedras onde passam.
Brandos cantares imitando hinos
Que aos nossos ouvidos sussurram:
Caminha,
Esmaga os espinhos e tece a seda
Com que se farão bandeiras festivas,
Colorindo noites e estrelas,
Como borboletas acordadas no meio da noite
E que recém despertas refletem puro sol,
Que abraçarão mundos e beijarão vidas.
Assim somos nós e nos fazemos
Como nuvens tranqüilas de paz
Que buscam pouso,
Como pés que cruzam oceanos
Em asas de encanto, como remos que desbravam
Procurando portos.
Somos os pés nus que semeiam bosques
Nas cordilheiras mais altas, somos flores e frutos
Que deixam marcas nos caminhos estreitos,
Onde a amizade é a sentinela
Do nosso amor que vai se construindo.

DOS RELACIONAMENTOS





Quanto desuso em minha pouca prosa
Que nem servir de entendimento serve,
Pensamentos em curvas,desvios sem setas,
Pois ninguém ouve meus sons
Nem minhas rimas,
Ninguém comigo o rico tempo perde.
Não sai de mim uma verdade viva
Merecedora de um fugaz olhar ligeiro,
Nenhuma prece, opinião, emenda,
Nenhuma febre pagã ou pestilência
Que sobreviva a um comentário passageiro.
Nenhuma referência ou curto riso
Da ilusão de um desencontro encomendado,
Nenhuma piscadela de comum entendimento,
Um gesto cúmplice,
Uma língua para fora, um cuspe, uma tosse forçada.
Falo então para dentro, para um eu desapontado
Que sempre só buscou no mundo um companheiro
Que ouvisse e repetisse as mesmas meias palavras,
Que nunca aplaudisse, que mesmo não gostasse,
Mas que ficasse ali, olho no olho, face a face,
Sòmente a impedir que eu me apagasse por inteiro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

A PEQUENA SEREIA








Voltar ao fundo dos olhos da amada
pisando em conchas, no chiar da areia,
colar de sempre-vivas, enigmaticas
primaveras marinhas perfumadas
de sal e vento,
na caricia dos membros trespassados
em fios, ligeiros arrepios
na nuca que se curva em gozo,
cabelos em desalinho, pele em fogo.
Tocar de leve nos peitos com linguas viris
a deslocar ondas de absinto
e se perder de novo, zonzo, faminto,guloso,
mergulhando em nadegas sempre duras
como um monumento fabuloso.
Contornos de sereia a se cobrir de espumas
entre algas tramando mantilhas geladas e noturnas,
leves como o movimento de um sopro
em ouvidos atentos, musica de ventos,
passos calmos como espaços
onde se navega em silencio,
amor em silencio,
valsando lento em pleno cio.

DOS DESEJOS





Deixa o meu silêncio te percorrer
com meus olhos tortos,
jamais admitindo que te amo,
assim como as tuas mãos não precisam
nunca mostrar o quanto me querem,
Basta o teu respirar intranquilo
para traduzir o desejo indócil
que te inquieta.
Eu sei sempre o que esperar do que somos,
não são necessárias palavras entre nós,
sei ler os teus poros molhados um a um,
braile às avessas moldado em brasas
como um relogio que espera, tenso,
ansioso pela lição do próximo minuto.
Instinto nu que se proclama sempre em gloria,
de luzes ungido, de suór e febre,
caminho que me aproxima sempre, sem que eu queira,
armado em tatuagens de veias
que procuram morada em teu refugio profundo,
nascente de riachos quentes
cercados de bocas gulosas
que sugam meus vazios.
Instante em que sentimos tanto que não vemos
que entre o dia e a noite
somos sempre a madrugada aliviada
de um céu em chamas.

NERUDIANA 2




NERUDIANA 2


Volto a falar como quem passa
uma vida inteira buscando
em espelhos o sentido inconstante
dos desejos proibidos,
rabiscados sem definição na tua pele,
pergaminho indecifravel de contornos,
como um rio manso
que alisa vales e pomares
insistindo em fecundar a minha terra bruta,
chuva macia caindo em meus olhos
para sempre semeado desse teu encanto.
Cheiro de pó molhado, de vidraça antiga
respingada de vela,
viço de grama serenada estendendo tapetes
nos caminhos
para que eu sempre te encontre
e possa me fartar do teu encanto
e da tua boca pintada,
como se numa ultima e vaga tentativa de querer
eu pudesse para sempre entender o teu destino,
e compreender o porque da luz intensa
sempre envolvendo os teus cabelos
em sons de serenata e de pandeiros,
poder sentir com todas as verdades
o significado dos teus labios, tão desconhecidos,
entreabertos em prazer ou furia,
tãntas vezes para mim dissimulados,
tão apressados como uma brisa ligeira
que por nunca me pertencer não me importavam.

NERUDIANA




NERUDIANA


A velha casa encantada permanece em silêncio
como se nada alí respirasse,
num constante exercicio de pensamento.
A brisa entrando sem convite pelos quartos
vai esparramando sentimentos
que a tempos dormiam quietos pelos cantos,
como bibelos de louça em armários sonolentos,
escondidos nas sombras,
amedrontados com o falar subito do tempo.
O vazio vai arrumando as palavras perdidas
tramando com elas versos decididos,
em azul e branco feito espuma e areia,
moldados em pólem,
traçados à giz na noite adentro.
E assim vão se compondo as lembranças
felizes como roscas açucaradas, doces lamentos
do mar batendo nas pedras,
das pedras beijando os ventos,
muralhas brutas vestidas de noiva
em eternos rituais de espera, passivas, pacientes,
guardando os caminhos que cercam a casa
cheios de saudade, de roseiras sem flor
presas entre pedras cobertas de limo e musgos,
caminhos de lugar nenhum, para sempre perdidos
entre os seixos, as intenções e as falas não ditas.
Conchas rolando soltas nas praias,
muito leves ao sabor das ondas e dos ventos.

a.soares neto