
NERUDIANA
A velha casa encantada permanece em silêncio
como se nada alí respirasse,
num constante exercicio de pensamento.
A brisa entrando sem convite pelos quartos
vai esparramando sentimentos
que a tempos dormiam quietos pelos cantos,
como bibelos de louça em armários sonolentos,
escondidos nas sombras,
amedrontados com o falar subito do tempo.
O vazio vai arrumando as palavras perdidas
tramando com elas versos decididos,
em azul e branco feito espuma e areia,
moldados em pólem,
traçados à giz na noite adentro.
E assim vão se compondo as lembranças
felizes como roscas açucaradas, doces lamentos
do mar batendo nas pedras,
das pedras beijando os ventos,
muralhas brutas vestidas de noiva
em eternos rituais de espera, passivas, pacientes,
guardando os caminhos que cercam a casa
cheios de saudade, de roseiras sem flor
presas entre pedras cobertas de limo e musgos,
caminhos de lugar nenhum, para sempre perdidos
entre os seixos, as intenções e as falas não ditas.
Conchas rolando soltas nas praias,
muito leves ao sabor das ondas e dos ventos.
a.soares neto

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