
A solidão é sábia com seu beijo em silêncio
pois só o silêncio ensina.
Não existindo passos ou tropeços,
nem mesmo vultos sem memória,
não crescerão vínculos nem prisões, nem preces vazias
ou totens a serem venerados
ou lama ou fingidas alquimias.
Apenas um espaço incomum dentro de nós, tão percorrido
e tantas vezes isolado como uma folha em vôo, solitária,
calada desde o seu galho até um chão de crisandálias
sem brisa indócil que lhe sopre um movimento,
que lhe distorça as conseqüências, o peso, o fato,
e que sem medos pousa em sua própria calma.
O acontecer sem tempo é prenuncio de falhas,
nuvem de premonições agourentas e indóceis
mas sempre muito leves e que por pouco passam,
como um querer intenso que retalha e cai em chuva
desentendida de suas próprias águas.
Os rios de nossas veias se espalham em ternos abraços
como um pensamento de gaze, como espuma nas praias,
alguma coisa que não se pensa e passa
em seu eterno saber, livre das grades e das traças.

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