
Reproduzir em minúsculos cristais os inalteráveis e serenos
quatro cantos da dor, eis minha vida,
como uma agulha de bússola enlouquecida pelo tormento,
descontrolada e queimando rumos, abrindo brechas
por onde menos dói.
Norte sem direção, sul sem destino, vai a flecha
no desalinho precoce de uma vida injusta, eis a causa, o vaticínio,
não é o mundo que dói, é muito mais barroca a dor do que o destino.
O que arde e não passa é mais profundo,
quase como um eco, como um olhar refletido num sentimento de perda,
uma paixão estéril de um querer não tido.
Um projeto que caminha com muletas de vento vai surgindo,
vai olhando ao redor dos seus penhascos, em cima, em baixo, pelos lados,
como um lagarto arisco tentando saciar sua fome, suas cismas,
como um astro de segunda linha extasiado com a grandeza da noite
que muito pouco ilumina
e que por isso se espreme cada vez mais, tentando ser um brilho.
Mas nada é tão injusto quanto a lua quando se mantém distante,
na posse ilegal de todos os nossos caminhos.
Um projeto de torre vai surgindo, ereta e impassível como são as torres,
impaciente como são os projetos do destino,
mas sem possibilidades de direcionar rumos, imersa só em fantasia,
infame tentativa de vida sem respostas, sem possibilidades, sem volta,
altíssima ferida em morte lenta em espasmos de agonia.
Sem sonhos de sinos acordando aldeias, sem cheiros de praças,
sem vida, sem motivo.

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