
Volto a falar como quem passa uma vida inteira
buscando em espelhos
o sentido inconstante dos desejos proibidos
rabiscados sem definição na tua pele.
Pergaminho indecifrável de contornos
como um rio manso que alisa vales e pomares
insistindo em fecundar a minha terra bruta,
chuva macia caindo em meus olhos
para sempre semeados desse teu encanto.
Cheiro de pó molhado, de vidraça antiga
respingada de vela,
viço de grama serenada estendendo tapetes
nos caminhos, para que eu sempre te encontre.
Para que eu possa me fartar do teu encanto
e da tua boca pintada, do teu riso,
como se na ousadia de te pertencer
eu pudesse entender para sempre o teu destino
e compreender o porque da luz intensa
envolvendo sempre os teus cabelos,
em sons sutis de serenata e de pandeiros.
Sei que são os olhos do meu querer que te fazem,
e quero te fazer como te vejo.
Quero poder ver o sentido dos teus lábios,
ainda tão desconhecidos,
entreabertos sempre entre prazer ou fúria,
tantas vezes para mim dissimulados,
sempre tão apressados como uma brisa ligeira
que por nunca me pertencer não me importavam.

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