segunda-feira, 27 de julho de 2009

BALADA DO FILHO MORTO


BALADA DO FILHO MORTO
BRUNO MEZENGA


Dorme meu filho, dorme,
no berço da minha dor, coberto com meu sorriso,
encostado no meu peito, ao hino do meu amor.
Dorme, dorme, passarinho,
guardado dentro do ninho de espinhos que eu fiz tecer
no meu coração vazio,
para guardar teu silêncio, teu movimento macio,
teu riso tão resguardado, a tua infância ainda viva.
Vai descansado e sonhando descobrir novos encantos
onde ninguém penetrou,
de roupa branca encenando anamneses de planos,
brincadeiras de doutor,
escutando corações, imaginando alegrias,
que um dia tuas mãos macias curariam perdições.
Fotografia rasgada ao meio, ausência dividindo o tempo, colo sem peso,
noite escura acobertando a covardia da vida que te esquece o corpo
sobre o frio, tão quieto, tão sozinho,
que bebo com meus olhos perdidos, meu silencio, meu maldito vicio
de te amar tanto e tanto que estrangulo o grito.
Sentinela calada eu vou seguindo estes teus passos brancos,
teu rumo tão decidido, tua vontade cerrada,
tua bondade guardada que só quem viu preservou,
vou engolindo o destino tão de repente rompido,
num instante decidido sem mesmo te consultar:
ficou assim resolvido que não brincarias mais.
( Minhas mãos estão tão presas...)
Só comigo a brincadeira continua em vida inteira
que eu possa me recordar, meu coração é teu trilho.
Dorme em meu peito, meu filho, sem mais nenhuma aflição,
vou te embalando tão lento que nós nem vamos notar,
minha mão no teu cabelo, nossa distancia esquecida,
o sangue em chuva caindo de dentro do meu olhar,
cobertor desafinado tramado em perda e saudade,
que só a morte nos trás.
Vai e me espera tranqüilo, parte de mim te acompanha
e a outra parte seguindo, é só um instantinho mais.

A.Soares Neto

3 comentários:

SEXUALIDADE NA MATURIDADE disse...

Caro, não conhecia seu trabalho, mas confesso que li e me encantei. Cheguei as lágrimas com este poema. E espero que toque ao coração de tantos outros que por aqui chegarem a conhecer, e vejo que isto é apenas parte daquilo que faz. Lindo mesmo, seu trabalho. Parabéns!!!

Anônimo disse...

paradoxal e tanto.
extremos se buscando,
Quão rude, quão carinhoso
antagônicos Querendo se cruzar?

Anônimo disse...

J F Lisboa (o anônimo)de 18 de 01 de 2010
jflisboa@bol.com.br