
HORAS FRIAS
Quando a lembrança do meu jardim exalar silêncio
como um pequeno espaço entre pedras adormecidas,
levanta do teu leito de trigo
e colhe com teus dedos leves, uma a uma,
as pétalas dos meus sonhos dispersos,
e com uma calma amanhecida deposita esses votos
no altar puro das minhas intenções.
Quando em ondas raivosas se pressentir tempestades
no mar das minhas veias,
pequenas conchas como caravelas nacaradas seguirão navegando
entre a tormenta,
e repara bem nas faces que carregam,
vestidas da cor da saudade,
recorta uma a uma estas minhas penas
e cola seca e sem medo no meu álbum sem margens.
Quando a sombra dos meus desejos em migalhas
iludirem teus olhos mais uma vez,
como um palhaço desavisado que rouba cenas inacabadas,
e não houverem mais brechas que pressintam corações batendo,
nenhum cais, nenhuma mínima estrada,
recolhe em paz os traços de paixão que ali ficaram prostrados
no pressentimento de que tudo aconteceu em minha vida,
e nada.
a.soares neto ( cabeça de vento )

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