sábado, 3 de outubro de 2009

MEUS DOIS FERNANDOS


MEUS DOIS FERNANDOS


Se todas as pessoas fossem Fernandos, ainda que por um traço,
eu me daria por satisfeito com a vida,
seria assim bem mais do que um passo dançado, seria toda uma festança,
seria como se refazer em nó de laço que teima em fechar contornos
sobre grandes espaços, como cordilheira que abraça e distingue
quem vai ou quem sobra , quem apenas passa de quem mora ao largo.
Se pelo menos algumas pessoas fossem Fernandos
eu me sentiria feliz, como uma alma lavada que vivesse sem responsabilidades,
como um vento que sopra saias vistosas sobre a areia das praias
mergulhado num calor que ninguém visse,
água fria, tempero de pele cansada, cheiro de vento, ousadia de passos largos
ou mesmo o mergulho de um pássaro sobre o nada. Seria tanto,
seria como um papel voando em céu de cobalto, malabarismos de feira
em pleno encanto de palcos, um eco mudo de paixão que implodisse
em saliva verde nos vales, respirar tranqüilo por grandes espaços.
Se me restassem apenas dois Fernandos
eu seguiria pela vida sempre rindo, zombando de qualquer pêso,
apoiado em meu destino de ter a luz ao meu lado, sementes de encantamento,
rochedos, palmeiras, serestas, tudo o que pode ser justo e bom, desentendido,
esperado, criação de anjos ligeiros, cabeças, discernimentos, destinos,
pensamentos aloprados ainda a serem vividos.
Com meus dois eu seguiria sem mais qualquer solidão, um sonhando
outro carpindo os mesmos terrenos frágeis
onde se plantam caminhos, onde se espera chuva
que cresça seus sentimentos, que modele seus prumos,
que faça em ondas o seu mar de paixão pelo indistinto.

a.soares neto (cabeça de vento)

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