domingo, 13 de fevereiro de 2011

MEUS DOIS FERNANDOS





Se todas as pessoas fossem Fernandos, ainda que por um traço,
eu me daria por satisfeito com a vida,
seria assim bem mais do que um passo dançado, seria toda uma festança,
seria como se refazer em nó de laço que teima em fechar contornos
sobre grandes espaços, como cordilheira que abraça e distingue
quem vai ou quem sobra , quem apenas passa de quem mora ao largo.
Se pelo menos algumas pessoas fossem Fernandos
eu me sentiria feliz, como uma alma lavada que vivesse sem saudade,
como um vento que sopra saias vistosas sobre a areia das praias
mergulhado num calor que ninguém visse,
água fria, tempero de pele cansada, cheiro de vento, ousadia de passos largos
ou mesmo o mergulho de um pássaro sobre o nada. Seria tanto,
seria como um papel voando em céu de cobalto, malabarismos de feira
em pleno encanto de palcos, um eco mudo de paixão que implodisse
em saliva verde nos vales, respirar tranqüilo por grandes espaços.
Se me restassem apenas dois Fernandos
eu seguiria pela vida sempre rindo, zombando de qualquer pêso,
apoiado em meu destino de ter a luz ao meu lado, sementes de encantamento,
rochedos, palmeiras, serestas, tudo o que pode ser justo e bom, desentendido,
esperado, criação de anjos ligeiros, cabeças, discernimentos, destinos,
pensamentos aloprados ainda a serem vividos.
Com meus dois eu seguiria sem mais qualquer solidão, um sonhando
outro carpindo os mesmos terrenos frágeis
onde se plantam caminhos, onde se espera chuva
que cresça seus sentimentos, que modele seus prumos,
que faça em ondas o seu mar de paixão pelo indistinto.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

LUZ E ESCURIDÃO





Falamos de pedra e ar
e dos pressentimentos que temos,
falamos das tochas acesas
iluminando caminhos,
do carinho dos olhos, do pó e da lama,
dos pés sem destreza
que nunca chegam sozinhos.
Construímos com dentes os nossos destinos,
amarrados aos pequenos deuses
que nos espelhos descobrimos,
ocos, vazios, indistintos,
sempre trilhando emboscadas
e compartilhando labirintos,
girando, torcendo, prevenindo,
bebendo em goles tão secos
o pouco que possuímos.
Trajetos tortos de danças impuras
vão abrindo caminhos
em nossas vidas, em nossa luta sem raça,
em cirandas mal dançadas
em nossas ruas pequenas,
em nossos becos tão frios,
tapetes de poucos rumos trançados em vãos lamentos
com nós bem dados de sentimentos tão lindos,
corpos nus abandonados, virtudes desencontradas
a espera de um dominio.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

LEMBRA DE MIM





Lembra de mim, eu peço inutilmente aos que passam,
eu sou aquele que já amou um dia,
imensamente mais do que em qualquer fantasia
e agora estou assim.
Eu sei de luas que surgiram e passaram por cima de telhados,
conheci gatos que nunca alcançaram a lua
e viveram sempre em senões de despedida, distantes e frustrados,
sei de amores que dormiram em silêncio e nada viram,
nunca viram luas ou souberam da paixão dos gatos.
Lembro de mim alimentado de sonhos, feliz, imenso, encantado,
quando amantes nossas bocas se entendiam, nossos corpos rolavam,
quando a eternidade nos dizia: eu sou teu sono, vem,
descansem tranqüilos ao meu lado.
E éramos do mundo a melhor parte, a parte viva
do intenso, do indiscritivel, do desejado,
a sensação de paz com que nos pertencíamos,
o calor, a luz, o bem de estar lado a lado.
Lembra de mim, eu peço aos que passam,
desenhem meu contorno, fotografem meus lados,
eu fui alguém que amou um dia, tanto,
e já passei por aqui, por onde hoje passo,
já fui você que hoje me olha tão distante,
não se esqueça de mim, eu sou teu traço.


A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

OS OUTROS EUS





Cavalo do mundo assim padeço
sofrendo dos pedaços que me tira o vento,
alma sem previsão, compromissos pequenos,
tijolo esfolado no esmagar do tempo.
Eu não me quero ver assim,
retrato aprumado de fundo, amorfo, sinistro,acanhado,
mas simplesmente são.
Abusado, hiperativo e torto,
veloz, desencontrado, infinito, oposto,
dilúvio, mal encarado, estorvo.
Quero o melhor da arte do meu contrário,
desentendido de tudo, psicopata fragilizado,
semente de ventos, bateria da Mangueira,
varredor de rua, tarado.
Remador de barco a vela,
adestrador de pipas, rei deposto, bastardo,
sonhador sempre apressado, viola fora do saco,
assobiador noturno, terno de linho riscado,
malandro fora de ordem pela noite apaixonado.
Não quero mesmo de mim ser assim
bem comportado,
não quero pedir licença, me manter sempre centrado,
ser luz do fundo do poço, sério, sizudo, fechado,
fechadura de sorrisos ou primo de delegado.
Não quero fazer cabeças, não quero ser bem criado,
ser homem de confiança, fiel, prestativo, solidário,
hospitaleiro, afetivo, pausado,
como tantos que ficaram na foz do mundo afogados.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

sábado, 12 de fevereiro de 2011

DIÁLOGO COM AS ROCHAS





Primeiro eu tive que falar do mar
para que me soubessem
provedor de marés,
depois foram as pedras
que se somaram tantas
em meus turnos de vida e morte
que delas teci minha couraça.
E por fim o vento
completando o triangulo
sem vértices
das minhas descobertas imprecisas.
O vento como voz das minhas tantas bocas
que nunca mais se calaram
depois de descobrir a força do seu tempo,
o acalanto do pensamento acariciando as peles
e a percepção do infinito do momento.
Para falar do mar me fiz vento,
para falar do vento me despi das minhas pedras
permitindo o seu beijo me envolvendo,
para falar das pedras
novamente me fiz mar em movimento.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DE VENTOS E VENTANIAS





É sempre um vento em desvio percorrendo a minha língua,
trazendo versos de lua, varrendo tardes vazias,
crescendo à tua saudade, minguando ao teu pensamento.
É sempre um sibilo doce rasgando a mudez do tempo,
é sempre espera guardada de alguma coisa inocente,
de traduzida verdade, de pecado incoerente.
Sabor de velocidade, natureza, força, rumo,
talvez de preguiça solta, talvez de um senso sem prumo,
que chega moldando a pele com palavras de pouco uso,
veludo manso nos dedos, beijos nas mãos espalmadas,
luvas cobrindo punhos,
ronda incerta de amantes, gozo frio nas madrugadas,
prazeres faceis do mundo.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DE TODOS OS ENCANTAMENTOS






Fazer da dor o encanto em movimento,
o balé dos ventos na tempestade que não passa
por entre nossas asas de moinhos lentos,
braços que nadam rodopios de estorvos
em brandos contornos desajustados, como lagartos
navegando pedras, descuidados e atentos.
Mansos teares em dedos sonolentos que se perdem
de tanto procurar seus pontos, sonhos em mapas
desconhecidos que se desfazem, se perdem, se confundem,
pequenas pedras de rios mansos que navegam curvas
em despreocupado movimento.
Só quem ama é capaz de deslocar da vida o intenso,
a força que percorre em lavas as entranhas desse tempo
que mora em nossos becos desconhecidos, desavisados
da perda dos nossos melhores tormentos.
Paixões costuradas em escombros de almas amortecidas
cobertas por feridas expostas aos menores encantamentos,
mãos em prece purgando ausências em penoso sofrimento
onde jamais se escuta um ai, uma sombra de dor,
uma coisa qualquer que aperte o peito como línguas amargas
lambendo resquícios de vento, que arrepiam pequenas poças de água
onde já não nos vemos.
Escaras de esperas longas como o dia, como um dia de espera,
como qualquer coisa escassa, um passo, um lamento,
como uma hóstia que se bebe em plena rebeldia.



A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DAS TRANSFORMAÇÕES





As tuas mãos ásperas conhecem bem
os caminhos delicados da minha dor
de tanto percorrer os meus contornos de pedra,
por isso fecho meus olhos e adormeço em silêncio
para me tornar água em tuas mãos,
e ser moldado como vidro entre teus dedos leves,
ao teu critério e ao teu dom de encanto.
E ser bebido para matar a tua sede de mim,
e ser banhado no teu pranto
para aliviar o teu cansaço de mim,
me deixando envolver pelo teu dentro e o teu fora,
ser teu privilégio dócil de magia que sacia e acalma,
ser teu destino que me reconforta e recria.
Todos os meus fragmentos convergem brandos
para um núcleo teu, que refaz todos os dias
essa taça quebrada que transbordou em teus escuros,
com todos os meus fantasmas naufragados
em desajeitadas alegorias,
cinzas de fogueiras apagadas, sem qualquer brilho,
cama dura onde a vida dormiu com um olho aberto
entre acalanto de feras,
sem descuido.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DAS NOSSAS CABEÇAS





As nossas cabeças são nuvens prenhas
de inesgotáveis possibilidades, temporais
contidos na raiz de ventos em desuso
como uma tensão de calmaria
que antecede o insulto.
Caminho inconstante de quereres, férteis desertos frios
em sucessivos movimentos de luto,
como ondas, como vôos, como qualquer coisa
muito leve, talvez como paixão adolescente
ou como um vulto,
talvez até como um pressentimento,
um instante de espera entre soluços.
As nossas cabeças são volumes absolutos
preenchidos de desgastes do espelhar do tempo,
coleções recolhidas sem critério, pequenos movimentos,
impulsos,
são batalhas para sempre começadas, propostas sem lucros,
dores, filmes mal dirigidos, palcos recortados no escuro.
Cabeças são mãos em gestos obscuros
em eterna mímica de abuso,
tentativas de acerto em alquimias de percurso,
tensões mal colocadas, janelas sem frente,
paredes, totem, surto.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DAS BUSCAS DESENCONTRADAS






Conhecer, conhecer,
a se morrer de tanta busca em desencontros.
Nada, não há porque.
È muito vago o que se percorre em riscos
entre rabiscos e passos, caminhos lisos
em bocas frias, emoções em desalinho.
Crescer em que?
Melhores condições de amar, que é o preciso?
Mais entender?
Docilizar o ódio ou mutilar o tédio?
Só aprender estratégias de batalha de ventos
sem nunca saber voar
por entre esses pequenos mundos cegos,
tão em desapego, tão acabados, secos,
onde não se encontram mãos ou dedos
mas apenas entremeios por onde vazam os risos,
como ratos,
onde o olho não vê e a pouca fé já não conforta.
Conhecer o que?
O próprio instinto a ser domado, o medo?
O tamanho do pulo a ser dado, a razão
de todos os começos?
Conhecer para que, se as amarras continuam firmes
envolvendo os quereres em trevas e luto,
se as línguas se perpetuam presas, o saber em desuso,
se tudo é destino sem mudanças, sem retornos,
sem possibilidades,
para que colocar contornos em vultos?
Talvez o impulso em si responda
o que não respondeu a critica ou o senso,
o interno mutilado em caos absoluto.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DA CORRENTEZA DOS RIOS

Por todos os caminhos deslizo vago
sobre o impróprio movimento das coisas,
corte impecável de velas atreladas
a memórias de ventos, como rendas flutuantes
recortando lembranças do intenso, como pétalas,
apenas o meio observando as margens lamacentas
que trituram dores em pequenos movimentos.
Há menos medo da dor no equilibrio manso da corrente,
do outro lado da sorte que não prevê escolhas,
infinito sem finalmente, franzido e arrastado
por estradas secas que por tudo passam indolentes.
Sou claro e escuro quando sei o que sou,
ou apenas mágua quando me pressinto.
E como fenda no alto de um abismo, ancoro mudo
como janela que não vê, com seu olho arregalado e cego
que procura pelo cheiro, por instinto.
Sou o que descobre presságios em possibilidades
sem quaisquer maquinações ou riscos,
sem o pavor do encalhe de um pássaro no infinito.
Apenas vai se indicando o prumo do que segue
sem muito se pensar, se com pressa ou lento,
ou nada disso,
as beiradas sempre servem para se pousar a vista
e descansar o sorriso
que dos olhos medem o alto e o baixo
daqueles que confundem o seu contorno aflito.
Não há nunca um destino a ser chegado nem há nunca
um horário a ser mantido, apenas o navegar da própria natureza
que para lugares seguros vão nos conduzindo.
Nas tardes, alguns sinais de chuva
que sempre cairão em lugares indistintos,
às vezes muito lentas por calhas em meus telhados de vidro,
barulhentas em seu agouro embora secas
quando percorrem meus cômodos invertidos.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

COISAS DA NOITE





Guardei meus beijos, tantos, e ainda os guardo
com o presságio de todos os encantos,
como quem na luz espera a noite, a calmaria,
pelo desejo infame que não tarda .
Vem a volúpia de enroscar nos cantos, nos escuros,
sentado alí onde eu me sento todo dia,
molhado de orvalho fresco e perfumado
que me agasalha com um cio que não sacia.
Demonstram todos os meus caminhos desvairados
de paixão, de tesão, de hipocrisia
que se deixar amar de qualquer forma
é fazer grande ou maior o desfrutar dessa alegria.
Por serem tantos os meus sorrisos interesseiros
bem maiores que meus beijos, mais sentidos,
é que me faço aguardar e alí aguardo
pelo roçar suave de todos os vestidos.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

CLAUDIANA




Construir estradas paralelas sobre linhas planas
para caminharmos sempre juntos,
é como nos contorcemos sobre um tempo
que nos fez semelhantes e nunca nada nos cobrou por isso.
Os leitos profundos nós os fazemos sempre,
independente de quereres, bordados de seda e espinhos,
tapete estendido sobre lugares indistintos
onde os teus pés que caminham são de ferro
envoltos em sapatos de algodão macio,
deixando lisas as pedras onde passam, beijando precipícios.
Brandos cantares imitando hinos aos teus ouvidos sussurram:
Caminha, vai, não tenha medo,
esmaga os espinhos e tece a seda
com que se farão bandeiras festivas em todos os domínios,
colorindo noites e estrelas, permitindo a vida,
estandartes de borboletas acordadas no encanto de luas
com suas asas leves vincando seus destinos.
Assim é você, como o desenrolar de um fio,
agudo prumo segurando pipas entre as nuvens
em inimitáveis rodopios, mãos em paz que fazem pouso
em tantos corações famintos,
sinalizando portos de repouso absoluto. Pés peregrinos
que cruzam oceanos despertencidos e indistintos,
em barcos de guerra, com remos resolutos,
recolhendo sentimentos tão por aí desavisados,
enchendo de virtudes mãos que vão pedindo.
São os pés nus os que semeiam bosques
nas cordilheiras mais altas, somando flores e frutos,
que deixam marcas nos caminhos estreitos,
que sinalizam os rumos
nas paredes tantas vezes sem éco dos mais profundos labirintos,
que vão mostrando o traço dos faróis nas noites escuras,
onde a amizade é a grande sentinela
de todo o amor que vai se construindo.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

CIRANDA PARA TOM QUINTANA






Plim, plim, plim,
apenas passarim!
Tudo que é sol não se põe,
mar da Bahia, axé perfumado, queijo de minas
com melado, tudo luz que não em fim.
Não fosse a vida passando
com seu peso a passos largos, com sua verdade dura,
tristezas que não tem cura, a gente seria assim.
Plim, plim, plim,
apenas passarim!
Serestas nas madrugadas,
amores no beco escuro, assobios, flores, palmas,
numa alegria sem fim.
Não fosse a vida chegando com bombas desavisadas,
crianças cegas nas ruas, barrigas em mãos suadas
de sangue e pó, sem mais nada, a gente seria assim.
Plim, plim, plim,
apenas passarim!
Voando em céus de asas largas espreguiçando a preguiça,
conversando sonhos fartos numa vantagem sem fim,
não fosse a vida inventando maneiras de sofrimento,
torturas, constrangimento, partidas, choros, lamentos,
bocas gritando que é o fim.
A gente seria assim,
plim, plim, plim,
apenas passarim.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

CIO DA NOITE





A noite se abre azul para a noite
enquanto corpos gelados se abraçam
sorrindo em cores confusas.
Beijos velados no escuro, nas moitas,
nas sombras dos postes, nos muros,
em buscas caladas em torno do vento.
Sorrisos presos em vestidos desamarrados,
amarelados de tempo e saudade,
presenças vendidas, virtudes, ausências,
risonhas estradas por sobre veludos, são corpos desnudos,
macios , que gritam, que riem, que cantam, que brincam,
que quebram a calma das almas no cio.
Caricias, calores, embalos da noite, pequenos vícios,
rançosos odores,
famintas jornadas, paixões arrumadas, felizes destinos
em poucos pudores.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

BUSCA NUMERO QUATRO





Na minha boca os risos são escassos
como rios de nuvens, totalmente brancas,
imaginadas no céu de um deserto quente.
Não há razão para mim de riso ou chuva
nos entraves dessa vida percorridos,
na sempre busca,
pois não há dia igual ao dia
que passou ou vem com suas surpresas,
desapegado da fidelidade ou da virtude
de ser sempre o mesmo dia,
ter conteúdo de chuva ou prenuncio de riso,
e molhar ou sorrir sem justa causa,
sempre em sacrifício.
Não é como os ventos que apenas acontecem
em eterna surpresa,
sem que nunca sejam chamados,
assim também os meus amores, que vem e vão
sem avisar o quando.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

BUSCA NUMERO DOIS





Nas minhas veias correm sempre sonhos verdes
como verdes lagartos fugindo,
mansos regatos que levam ao nada, quase sempre,
sugerindo primitivas primaveras perfumando ventos,
esperando um momento em que alguma verdade aconteça.
Caminho dentro de mim sem pressa alguma, lento guardião
que espera a tua vinda súbita, e vou andando
cavalgando a tempestade dos meus vãos sentidos,
sem nunca antecipar esperas ou ausências,
apenas me levando pelo continuar manso da brisa
que mansa, mansa, vai fluindo,
e que de tão leve não modula nem meus sonhos,
nem o que quero, nem o que sinto.
Fico sempre a tua espera e não te encontro,
por mais que busque e que percorra os teus domínios,
por mais que chegue aos teus ouvidos em meus clamores,
por mais perto de ti, não me aproximo.
Nas minhas veias correm sempre sonhos verdes
como a verde garapa da tua boca infinita,
lago de instintos infiéis que melam meus desejos
como doce alfazema nas plumas de um leito.
E te procuro tanto ao redor dos pensamentos
justificando em vão, à mim, meus desencontros
em meio a tantos eus que em ti pressinto.
Talvez depois de um dia ou de um momento
te percorrendo em meio a rios de labirinto,
de ti eu faça encontro do que tento
e do tentar, paixão, em que me tinto.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

BRANCA PELE BRANCA




Mal sabes
que cobicei o teu corpo
por um vão de porta,
onde só podia entrar
o desejo dos meus olhos
escondidos na sombra.
Percorri os teus caminhos impossíveis,
brancos e macios,
como quem rouba
pela noite
um bosque
e nele penetra sutilmente
com medo e cuidado,
respirar ofegante
pedindo silencio ao tempo,
pés no ar
com a premência da fuga
e a obrigação da espera.
Assim te vi em mim, pele a pele,
e fiquei preso para sempre
no teu corpo,
assim te carrego comigo
numa lembrança doce
e de improviso.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

BILHETE RECEM CHEGADO





Continua andando
que o teu caminho certo é o longe,
berço embalado em distâncias de vento
ao longo do hoje, inverso da suposição critica
que nunca te indica onde se chega
e se mostra as vezes tão pesado que te impede a ida.
O fazer é esse pedaço doce da calma
que guardamos arrumado entre rendas
em nossas gavetas mais intimas,
junto com o viver do agora,
junto com a segurança destemida.
Nada de acontecer em meios atos, assume a raiva,
não te resolvem as vaias dos amores perdidos,
seqüelas de vícios de posse e sofrimento,
passos indecisos.
Acomodados felinos gritando duro com seus segredos
estão sempre despertos, em toda parte,
roendo seus dentes em frescos arrepios,
moendo seu sumo, aconchegando a morte
que passa inquietamente por sua boca
impedindo qualquer ataque imprevisto.
Assim nos reconhecemos quando afogamos o instinto,
murmúrios de roçar de folhas em senil atrito,
eis o teu medo, teu medo insano e paralítico,
teu quieto aparato de perdas que não vê medidas
e se entrega sorrindo ao porre da pobreza, ao tudo findo.
Nada havendo nada se perde
e também nada se mede ao não se ir vivendo.
Partes não são nada, você sabe, são só caminhos.


A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

BALADA DO FILHO MORTO-BRUNO MEZENGA






Dorme meu filho, dorme,
no berço da minha dor, coberto com meu sorriso,
encostado no meu peito, ao hino do meu amor.
Dorme, dorme, passarinho,
guardado dentro do ninho de espinhos que eu fiz tecer
no meu coração vazio,
para guardar teu silêncio, teu movimento macio,
teu riso tão resguardado, a tua infância ainda viva.
Vai descansado e sonhando descobrir novos encantos
onde ninguém penetrou,
de roupa branca encenando anamneses de planos,
brincadeiras de doutor,
escutando corações, imaginando alegrias,
que um dia tuas mãos macias curariam perdições.
Fotografia rasgada ao meio, ausência dividindo o tempo, colo sem peso,
noite escura acobertando a covardia da vida que te esquece o corpo
sobre o frio, tão quieto, tão sozinho,
que bebo com meus olhos perdidos, meu silencio, meu maldito vicio
de te amar tanto e tanto que estrangulo o grito.
Sentinela calada eu vou seguindo estes teus passos brancos,
teu rumo tão decidido, tua vontade cerrada,
tua bondade guardada que só quem viu preservou,
vou engolindo o destino tão de repente rompido,
num instante decidido sem mesmo te consultar:
ficou assim resolvido que não brincarias mais.
( Minhas mãos estão tão presas...)
Só comigo a brincadeira continua em vida inteira
que eu possa me recordar, meu coração é teu trilho.
Dorme em meu peito, meu filho, sem mais nenhuma aflição,
vou te embalando tão lento que nós nem vamos notar,
minha mão no teu cabelo, nossa distancia esquecida,
o sangue em chuva caindo de dentro do meu olhar,
cobertor desafinado tramado em perda e saudade,
que só a morte nos trás.
Vai e me espera tranqüilo, parte de mim te acompanha
e a outra parte seguindo.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

ANJO DA NOITE






A sua face se abriu em meio ao encanto de um gesto,
feito um soluço, como mancha de leite em sua face
coberta de vermelhos, de cinzas e de espanto.
Descida aos becos mais sujos, roupas rasgadas de uso,
vem manchada de cuspe, atordoada e à toa,
vendendo docemente nos caminhos
suas dúzias de oficios, em riso ou pranto.
Operária da noite, fada absoluta do inconstante,
vai envolvendo a nossa solidão em seu sofrido manto
acobertando as aflições e as dores,
só tendo o corpo magro a oferecer, e é tanto,
como defesa do seu tempo em desafio,
a prece esquecida, a pouca vida, as cicatrizes veladas,
no praguejar da amiga o unico acalanto
em súbitas gargalhadas, sorriso imundo nos seus gritos roucos.
Rude tecelã de breves fantasias costurando ouro em trapos,
é como uma mãe perdida, consolo de uma irmã no cio
que desola o que nos cabe, o ventre como esmola,
o colo macio,
a que nos cuida sem temores em qualquer dos nossos vícios,
em íntimos, sagrados e imensos sacrifícios,
mascarando o sofrimento em seu encanto,
a que nos sossega, a que nos perde e sacia.
Desfrute útil, doce passageira de momentos esquecidos,
anjo noturno, pedestal de falsidades, virgem maria,
mulher qualquer, amor qualquer de qualquer canto.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

AMORES PERDIDOS





O meu amor te procura acelerado
como uma lixa faminta
querendo rasgar a tua pele em tiras,
buscando ternuras sempre faladas em pés de ouvidos.
Mas como um vento chato de fundo de quintais
que sopra lembranças em vicios profundos,
eu recebi meus avisos e parei, num movimento brusco:
eu sou e sempre fui o retorno dos ecos indecisos
que percorrem a alma em desafios
e só encontra por fim mais labirintos.
Com meus direitos calo então o meu desejo
e me desembrulho, só e sentado nas beiradas
vendo um outro outono que se vai no tempo,
mostrando mais uma vez que o desalento é sorte,
e por ser meu, meu movimento,
e que aos poucos, manso e tranqüilo como sempre
posso engulir a todos os entulhos.
E vou dourando neles minhas buscas famintas e meus lampejos
de loucura,
meus dolorosos instintos.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

AMORES DESENCONTRADOS





Quantas vezes caminhei abstrato em volta de um mesmo jardim
de pedras tortas e escorregadias, perseguindo sombras insensatas
que por ali tivessem penetrado e deixado manchas no ar.
Buscando odores antigos que persistissem colados nas folhas
como pressentimentos soltos,
ou derramados na grama como por encanto ou teimosia.
Talvez um pequeno coração de menino atrapalhado
entalhado às pressas, quase sem jeito,
num pé de árvore qualquer que nunca tivesse crescido.
Talvez a noite ainda guardasse num dos seus cantos
algum tímido brilhar de olhares mansos,
algum resto de sorriso amarrotado na sarjeta,
um pedaço de grito.
Talvez a noite tivesse caminhos que abrissem a memória,
que trouxessem o recordar de tudo,
o sentimento de tudo, a voz, o beijo, a queda na grama.
Os corpos atrevidos pulsando, as mãos enroscadas,
o amor macio e proibido envolvendo braços, pernas, tornozelos,
cipó de estrelas nos dentes, doendo, sorrindo.
Quantas tolas muitas vezes percorri esses caminhos,
quantas vezes busquei e ri sozinho
da minha sombra, em gargalhadas úmidas e roucas,
assustando flores caladas que nunca me viram.
Quantas vezes meu coração de pedra veio ao chão
e se confundiu com as sombras, soltas, desencontradas,
vazio como um espelho que reflete a fuga.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

AMANTES INFIÉIS





A minha boca pintada ri seca da tua busca sem rumo,
teus senões desencantados, tua ira contida, teu luto,
passeando na aventura de paixão tão desolada, que destila
puro mel em nossos corpos somados,
corpos nus e descarnados buscando amores perdidos.
Teus olhos desencontrados sedentos de sombra fresca
vem dormindo inconformados nessa farsa do desejo,
e tuas mãos visitantes, faróis de pobre destino,
só vem encontrar caminho neste meu corpo de cal.
(flor do mal despetalada, em pó sutil resumida,
cicatriz resignada, bandeira na noite adentro
de paixões desventuradas, na dor do tempo assumida,
na foz do mundo afogada )
Contém a tua espera, guarda o teu fôlego,
as minhas lagrimas futeis não matariam nunca a sede intensa
desse teu tesão inútil,
e nem o meu riso falho poderia encher de luz
os rios frágeis do frouxo amor que esse teu corpo pede,
eterna busca que excede o limite incontrolável da dor.
Tão pouco o que te ofereço e ainda assim me queres,
tão nada eu posso te ser e ainda assim me ouves,
vem comigo então, parte da minha vida maldita,
fingir sermos felizes na alegria senil da nossa sorte,
ou gargalhar de pavor desse destino triste.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

AMANDA





Eu te encontrei parada na porta do tempo
sem saber se ficava ou se partia,
sem saber se chorava ou apenas sorria
para quem te amava, para quem buscava
sentido onde não havia.
Foi então que veio um vento
e carregou teu sonho, teus olhos, tua força
e teu momento, foi-se embora a razão
o querer e o sentimento,
o entardecer, as vozes, a alegria.
E assim meio sem cor, beirando a despedida,
meio sem jeito de ir na tua ida
o vento por fim te levou,
deixando vagos os lugares que ocupavam tua vida.
Nossos pedaços espalhados como ilhas
varridas, estéreis, presumidas,
ficaram sem saber, tão de repente,
se de amor ou de dor tua partida.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

ADORMECER EM LAIS





O céu é minha cama
onde canções sonolentas
vão surgindo do nada,
cobrindo meu corpo como lirios
semeados nas bordas dos lençóis.
E tuas mãos percorrendo
a minha calma adormecida
vão tatuando versos antigos
na minha pele cansada,
perpetuando ali a nossa historia.
Teu sorriso encontra o meu sonho
e me protege
dos demônios da noite,
enquanto traço caminhos de entrega
e sem querer te abraço,
e me deixo levar por esse rio.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

ADEUS

Perdão pelo meu pobre coração vazio,
pelos meus olhos que já não te encantam,
pelas mãos frias que já não te tocam
com o doce carinho do desejo.
O determinado tem sempre um tempo certo
e assim nos deixa sem qualquer aviso,
como se nunca pudéssemos escolher
como decidir, ou mesmo quando chorar.
A foice vem gelada como um abismo
e deixa as nossas entranhas expostas
ao triturar do tempo, tão intranqüilos,
a nos alimentar das pedras percorridas,
do visgo das renuncias, de temporais tatuados em vidro.
Pisados nos tornamos areias e ventos não resolvidos
nesse eterno moer dos sentimentos, pulverizando a dor
que não sabemos, ocultando os sonhos que não vimos,
onde não há perdão nem retornos, apenas o prensar
inacabável dos nossos moinhos,
onde o pó vai se tornando pesado
e cada vez mais sem brilho,
mais seco, estéril, tão desapercebido quanto os amores idos.
Venho cada vez mais espalhado no esconder da noite,
da minha noite e como a faço,
sempre mais densa, mais impenetrável, mais dura,
cansado das minhas memórias tortas
que percorrem pontes que nunca terminam.
Não podemos adiar a compreensão do fim,
por isso hoje te sorrio tanto
e de forma tão triste.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

A TUA PELE






Queria descobrir em tua pele o que ela ensina,
resinada em escamas de cismas como beijos indecisos,
como estoque de paixão sutil à fogo reduzida,
ou um sopro de canela em vento sem rumo
que muito leve assusta, implora e intimida.
Andar caminhos desatentos cobertos de orvalho e lírios,
como o tom da tua pele, que me indica em silêncio
que a medida da mão é sempre o olhar que passa,
que mata ou eterniza,
que o meu beijo acaba quando o teu carinho entra
pois é só meu vicio, é só o impulso de tormenta o que me fica,
enrolado em dedos toscos que te percorrem em garras,
que só de te desnudar não se contentam
e com seus mil olhos de tesão te experimentam,
e te lambem como um atleta no cio.
E fico aqui pensando comigo o que a tua pele ensina,
quando te rasgo com meus pelos, quando roubo teu cheiro
e em cansaço te deixo lívida no leito,
quando transformo em gozo o teu destino,
e te calo.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

A SIMPLICIDADE DA PAIXÃO






Espero o teu traço em meu caderno,
um só rabisco,
alguma maneira do teu buscar meu riso
ou minha pele em arrepio,
tua seda em meus espinhos, teu pisar macio,
teu chegar de folha em vento em assobio.
Tua nudez bem feita onde se encontra
a face irreal de um desafio, o trânsito da carne,
o sentimento tosco e primitivo,
o desejo sem limites que a razão vai comprimindo.
Sempre tudo assim, da mesma trama feito,
a causa e o efeito do bem querer previsto,
a pausa do tempo acelerada em nosso peito
como uma bandeira em que acredito, uma atitude,
o caminho de um leito
em impensáveis movimentos a cada instante revistos.
É sempre por paixão que se comete o instinto,
devoção que apegada se oculta
e permanece a destilar indícios, desafiar modelos,
enviesar caminhos,
meias palavras na boca, meios carinhos,
um adoçar de olhos, um desdém com jeitinho,
uma despretenção do pensar, uma réstia de vida
para morrer calado, cúmplice audacioso
dos males do destino.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

A SAIA DA DAMA





Debaixo dessa saia
tem um mundo,
oceanos, ilhas,
manguesais,
desertos desencantados,
varais,
roupinhas miúdas,
sonhos,
vozes ancestrais.
Debaixo dessa saia
tem um nome
tão lindo,
que um dia já foi dito
e jamais,
camisa branca, sandália,
corpete de renda,
brisas, ventos, vendavais.
Tem imprudência e destino,
tem até Deus, eu juro,
Diabo mais.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

A HORA DA MORTE




Toda morte é bem melhor na calma da noite,
é mais sentida,
a falta de tempo do dia não permite
espremer um choro forte, não faz figura.
A morte pede escuro, penumbra, delicadeza,
solenidade, certeza, um culto mais apegado
que valorize a partida.
A morte é deslumbramento.
Não é como um pensamento que se perde
e logo se encontra,
ninguém encontrou alguém
que assim tivesse perdido.
A morte é mais demorada,
não há como nessa estrada
se dar de desentendido.
Uma alma sem gente em despedida
é um se rir intenso dessa vida, um desatar
de nós antigos, atravessar de muralhas
que nos fizeram tão frágeis,
tão de graça desprovidos.
Vamos lentos na empreitada
com um respeito de vida,
mas sempre a noite, sempre.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DAS BUSCAS DESENCONTRADAS






Conhecer, conhecer,
a se morrer de tanta busca em desencontros.
Nada, não há porque.
È muito vago o que se percorre em riscos
entre rabiscos e passos, caminhos lisos
em bocas frias, emoções em desalinho.
Crescer em que?
Melhores condições de amar, que é o preciso?
Mais entender?
Docilizar o ódio ou mutilar o tédio?
Só aprender estratégias de batalha de ventos
sem nunca saber voar
por entre esses pequenos mundos cegos,
tão em desapego, tão acabados, secos,
onde não se encontram mãos ou dedos
mas apenas entremeios por onde vazam os risos,
como ratos,
onde o olho não vê e a pouca fé já não conforta.
Conhecer o que?
O próprio instinto a ser domado, o medo?
O tamanho do pulo a ser dado, a razão
de todos os começos?
Conhecer para que, se as amarras continuam firmes
envolvendo os quereres em trevas e luto,
se as línguas se perpetuam presas, o saber em desuso,
se tudo é destino sem mudanças, sem retornos,
sem possibilidades,
para que colocar contornos em vultos?
Talvez o impulso em si responda
o que não respondeu a critica ou o senso,
o interno mutilado em caos absoluto.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

PRISMA

Tem gente que nasce gente e outros não,
tem gente que nada nasce e pertence,
tem sempre quem foge à regra certos de que não contam,
tem quem se anuncia e quem fica, mudos e incompetentes.
Quem para numa só silaba e ainda assim destoa,
quem não tem escolha e desiste,
quem se veste de vermelho e diz que é preto, e faz sentido,
pois para quem tudo é cinza o caminho é vesgo,
quem tosse a cada enrascada engolindo o vento no peito
e resvalando em trajetos não cumpridos. Tem quem apenas se cala.
Quem nunca é notado tenta, coisa de triste talento
num viver de solidão que anuncia seu jeito, quem passeia
em trote lento, quem de si duvida e fala.
Tem gente de todo feito, de toda perfumaria, tem até
quem veste a roupa do lado torto do avesso
para ver se ali se encontra, às vezes só por um fio,
quem desiste e quem de sí tira proveito.
Cada coisa em seu destino, cada dedo aponta um leito,
se correr nada se encontra, se deitado a vida passa
numa carreira discreta de um querer que não se vence, passo sem prosa,
ausência de movimento.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

O OLHAR DO HOMEM








Te ver passar é como ver passar um rio
por sobre pedras brutas
a serem polidas.
Somos pássaros tardios, inconstantes moradores
de beiradas e remansos,
olhando longe nas distancias
feitas dentro de nós,
à nossa alegria ou ao nosso desespero.
Crescemos fugitivos de asas longas,
crescemos vento em constante arrepio
que faz curvas antigas e volta sempre
para dentro de si mesmo,
cansado de procurar caminhos.
Crescemos rio
que o passaro gigante percorre
espelhado nas corredeiras,
crescemos paixão de pedra bruta
ferindo a maciez do rio.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DOS FIOS E DA VIDA

Fala-se de fios
como se fossemos todos artesãos,
senhores da morte e da vida
e de todas as emoções.
Pudéssemos ser mágicos tricoteiros de intrigas ou de sensos,
brincadores fabricantes de sensações e de lógicas divididas,
agulhas mesmo do destino.
Fala-se de fios como se tecêssemos almas
em desalinho, virtudes e paixões, cismas,
infinitas solidões que voam sem caminhos.
E pudéssemos nós alinhavar os sentimentos todos,
e as perdas, as distâncias e os folguedos descontraídos,
sem mais falar dos amores tão brigados e perdidos.
Fala-se de fios como um cirurgião.
Alguém muito sério sentado soturno
no topo de um monte,
consertando a falta de poesia do mundo.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

DA CORRENTEZA DOS RIOS

Por todos os caminhos deslizo vago
sobre o impróprio movimento das coisas,
corte impecável de velas atreladas
a memórias de ventos, como rendas flutuantes
recortando lembranças do intenso, como pétalas,
apenas o meio observando as margens lamacentas
que trituram dores em pequenos movimentos.
Há menos medo da dor no equilibrio manso da corrente,
do outro lado da sorte que não prevê escolhas,
infinito sem finalmente, franzido e arrastado
por estradas secas que por tudo passam indolentes.
Sou claro e escuro quando sei o que sou,
ou apenas mágua quando me pressinto.
E como fenda no alto de um abismo, ancoro mudo
como janela que não vê, com seu olho arregalado e cego
que procura pelo cheiro, por instinto.
Sou o que descobre presságios em possibilidades
sem quaisquer maquinações ou riscos,
sem o pavor do encalhe de um pássaro no infinito.
Apenas vai se indicando o prumo do que segue
sem muito se pensar, se com pressa ou lento,
ou nada disso,
as beiradas sempre servem para se pousar a vista
e descansar o sorriso
que dos olhos medem o alto e o baixo
daqueles que confundem o seu contorno aflito.
Não há nunca um destino a ser chegado nem há nunca
um horário a ser mantido, apenas o navegar da própria natureza
que para lugares seguros vão nos conduzindo.
Nas tardes, alguns sinais de chuva
que sempre cairão em lugares indistintos,
às vezes muito lentas por calhas em meus telhados de vidro,
barulhentas em seu agouro embora secas
quando percorrem meus cômodos invertidos.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

DAS VIAGENS NO TEU CORPO

Eu te percorro com o desejo manso dos meus dedos
que buscam no teu corpo noites, presságios, segredos,
como pinceis macios esticados na tua pele de lontra,
tão leves, decididos, desenhando no ar
imagens de festas e delírios.
Aos poucos, vestindo de ilusões de rendas o teu corpo,
de mar em silêncio,
vou me chegando em infinita maré de lua cheia,
invadindo o espaço aberto do teu sono,
provocando espasmos ligeiros, calafrios,
doces arrepios em teus ouvidos de seda
onde se acomodam bem os meus gemidos,
minha saudade sem pressa, meus dentes
te ferindo leve em tatuagens de gozo.
Como um animal faminto no despertar do cio
levanto meu corpo e disputo feroz tuas planícies,
desiguais em seus contornos lisos,
na impunidade das tuas coxas frias.

A PAIXÃO E O TEMPO

Tão presente o calor do teu perfume de seda
pulsando tragicamente em meus caminhos
que não consigo te ver senão como um destino
atrelado ao meu, por toda a vida.
Nem que a vida seja pouca como é, e intensas as partidas,
ou como em qualquer parte, que com o tempo venha o corroer da maresia,
restará do mar sempre seu cheiro impresso nas pedras feridas
como uma necessidade de ondas em movimento, de cortes bruscos
de chegadas e de idas.
E do teu corpo restará o sal que um dia temperou meu corpo
hoje desentendido em chagas, febres de ausência em maldições de saudade,
em tortuosas lembranças de dor e de castigo.
Mas como falar de dor se a dor não é sentida?
Se a dor evapora das nossas feridas como um orvalho qualquer,
sem tempo de notar nossas fugas ainda famintas.
Fica no ar o perfume do teu sono de sempre, distante
na saudade das minhas mãos quase a te tocar
no espelho turvo da lembrança, e que ao não tocar
me faz viver inocente da tua despedida.

A.SOARES NETO- AMANTES INFIÉIS

EU TUMULO

Os meus amigos enterro-os tôdos
dentro do meu silêncio e da minha saudade,
como um fio do meu coração que se parte
sem possibilidade de reparos.
Acontecer simples como um fôlego perdido, como uma calma
que penetra muito fundo no peito e ali se aloja,
como um botão sem sua casa
afago um desencanto único e que é só meu,
embora publico.
Por serem meus, os meus amigos só descansam,
pequena pausa para reflexões mais amplas,
introspecção serena em imobilidade de lagarta
esperando um vôo mais distante.
Por serem definitivos não se apagam, viram rastro
de possibilidades, sempre surgindo mansos no meu ninho,
sempre me fugindo como sempre foram,
definitivos e inconstantes.
Memória seca que confunde os ânimos e dificulta a distância,
intolerável inércia, como uma bofetada numa face de pedra.
Sempre a espera, sempre o vicio da paciência
para o atenuar da desgraça, o remendar dos inícios.
Sou a terra onde repousa o riso, a vala onde semeio a lembrança,
onde a grama cresce fria, frágil e sem contornos, morro
quando a perda é viva, quando o sentimento é intoleravelmente
doloroso. Me construo em vazios.

A.SOARES NETO ( AMANTES INFIÉIS 2009 )