sábado, 12 de fevereiro de 2011
AMORES DESENCONTRADOS
Quantas vezes caminhei abstrato em volta de um mesmo jardim
de pedras tortas e escorregadias, perseguindo sombras insensatas
que por ali tivessem penetrado e deixado manchas no ar.
Buscando odores antigos que persistissem colados nas folhas
como pressentimentos soltos,
ou derramados na grama como por encanto ou teimosia.
Talvez um pequeno coração de menino atrapalhado
entalhado às pressas, quase sem jeito,
num pé de árvore qualquer que nunca tivesse crescido.
Talvez a noite ainda guardasse num dos seus cantos
algum tímido brilhar de olhares mansos,
algum resto de sorriso amarrotado na sarjeta,
um pedaço de grito.
Talvez a noite tivesse caminhos que abrissem a memória,
que trouxessem o recordar de tudo,
o sentimento de tudo, a voz, o beijo, a queda na grama.
Os corpos atrevidos pulsando, as mãos enroscadas,
o amor macio e proibido envolvendo braços, pernas, tornozelos,
cipó de estrelas nos dentes, doendo, sorrindo.
Quantas tolas muitas vezes percorri esses caminhos,
quantas vezes busquei e ri sozinho
da minha sombra, em gargalhadas úmidas e roucas,
assustando flores caladas que nunca me viram.
Quantas vezes meu coração de pedra veio ao chão
e se confundiu com as sombras, soltas, desencontradas,
vazio como um espelho que reflete a fuga.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS
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