sábado, 12 de fevereiro de 2011

ANJO DA NOITE






A sua face se abriu em meio ao encanto de um gesto,
feito um soluço, como mancha de leite em sua face
coberta de vermelhos, de cinzas e de espanto.
Descida aos becos mais sujos, roupas rasgadas de uso,
vem manchada de cuspe, atordoada e à toa,
vendendo docemente nos caminhos
suas dúzias de oficios, em riso ou pranto.
Operária da noite, fada absoluta do inconstante,
vai envolvendo a nossa solidão em seu sofrido manto
acobertando as aflições e as dores,
só tendo o corpo magro a oferecer, e é tanto,
como defesa do seu tempo em desafio,
a prece esquecida, a pouca vida, as cicatrizes veladas,
no praguejar da amiga o unico acalanto
em súbitas gargalhadas, sorriso imundo nos seus gritos roucos.
Rude tecelã de breves fantasias costurando ouro em trapos,
é como uma mãe perdida, consolo de uma irmã no cio
que desola o que nos cabe, o ventre como esmola,
o colo macio,
a que nos cuida sem temores em qualquer dos nossos vícios,
em íntimos, sagrados e imensos sacrifícios,
mascarando o sofrimento em seu encanto,
a que nos sossega, a que nos perde e sacia.
Desfrute útil, doce passageira de momentos esquecidos,
anjo noturno, pedestal de falsidades, virgem maria,
mulher qualquer, amor qualquer de qualquer canto.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

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