sábado, 12 de fevereiro de 2011

DA CORRENTEZA DOS RIOS

Por todos os caminhos deslizo vago
sobre o impróprio movimento das coisas,
corte impecável de velas atreladas
a memórias de ventos, como rendas flutuantes
recortando lembranças do intenso, como pétalas,
apenas o meio observando as margens lamacentas
que trituram dores em pequenos movimentos.
Há menos medo da dor no equilibrio manso da corrente,
do outro lado da sorte que não prevê escolhas,
infinito sem finalmente, franzido e arrastado
por estradas secas que por tudo passam indolentes.
Sou claro e escuro quando sei o que sou,
ou apenas mágua quando me pressinto.
E como fenda no alto de um abismo, ancoro mudo
como janela que não vê, com seu olho arregalado e cego
que procura pelo cheiro, por instinto.
Sou o que descobre presságios em possibilidades
sem quaisquer maquinações ou riscos,
sem o pavor do encalhe de um pássaro no infinito.
Apenas vai se indicando o prumo do que segue
sem muito se pensar, se com pressa ou lento,
ou nada disso,
as beiradas sempre servem para se pousar a vista
e descansar o sorriso
que dos olhos medem o alto e o baixo
daqueles que confundem o seu contorno aflito.
Não há nunca um destino a ser chegado nem há nunca
um horário a ser mantido, apenas o navegar da própria natureza
que para lugares seguros vão nos conduzindo.
Nas tardes, alguns sinais de chuva
que sempre cairão em lugares indistintos,
às vezes muito lentas por calhas em meus telhados de vidro,
barulhentas em seu agouro embora secas
quando percorrem meus cômodos invertidos.

A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS

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