domingo, 13 de fevereiro de 2011
OS OUTROS EUS
Cavalo do mundo assim padeço
sofrendo dos pedaços que me tira o vento,
alma sem previsão, compromissos pequenos,
tijolo esfolado no esmagar do tempo.
Eu não me quero ver assim,
retrato aprumado de fundo, amorfo, sinistro,acanhado,
mas simplesmente são.
Abusado, hiperativo e torto,
veloz, desencontrado, infinito, oposto,
dilúvio, mal encarado, estorvo.
Quero o melhor da arte do meu contrário,
desentendido de tudo, psicopata fragilizado,
semente de ventos, bateria da Mangueira,
varredor de rua, tarado.
Remador de barco a vela,
adestrador de pipas, rei deposto, bastardo,
sonhador sempre apressado, viola fora do saco,
assobiador noturno, terno de linho riscado,
malandro fora de ordem pela noite apaixonado.
Não quero mesmo de mim ser assim
bem comportado,
não quero pedir licença, me manter sempre centrado,
ser luz do fundo do poço, sério, sizudo, fechado,
fechadura de sorrisos ou primo de delegado.
Não quero fazer cabeças, não quero ser bem criado,
ser homem de confiança, fiel, prestativo, solidário,
hospitaleiro, afetivo, pausado,
como tantos que ficaram na foz do mundo afogados.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS
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