Tem gente que nasce gente e outros não,
tem gente que nada nasce e pertence,
tem sempre quem foge à regra certos de que não contam,
tem quem se anuncia e quem fica, mudos e incompetentes.
Quem para numa só silaba e ainda assim destoa,
quem não tem escolha e desiste,
quem se veste de vermelho e diz que é preto, e faz sentido,
pois para quem tudo é cinza o caminho é vesgo,
quem tosse a cada enrascada engolindo o vento no peito
e resvalando em trajetos não cumpridos. Tem quem apenas se cala.
Quem nunca é notado tenta, coisa de triste talento
num viver de solidão que anuncia seu jeito, quem passeia
em trote lento, quem de si duvida e fala.
Tem gente de todo feito, de toda perfumaria, tem até
quem veste a roupa do lado torto do avesso
para ver se ali se encontra, às vezes só por um fio,
quem desiste e quem de sí tira proveito.
Cada coisa em seu destino, cada dedo aponta um leito,
se correr nada se encontra, se deitado a vida passa
numa carreira discreta de um querer que não se vence, passo sem prosa,
ausência de movimento.
A.SOARES NETO-AMANTES INFIÉIS
sábado, 12 de fevereiro de 2011
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