A. SOARES NETO
OS
MISERÁVEIS
Um dia a mais para acreditar em promessas,
cultivar delírios de pertencimento,
um dia a menos para pensar em sobreviver,
um dia a mais para esquecer o que não vai mudar.
Cicatrizes de abandono não forjam tempestades
nem temperam paixõe
ilusão de trovões musicando o vento.
Anjos inocentes bordados em sombras
esquecidas,
manchas desbotadas, memórias fraturadas,
olhos famintos de esperança
olhando para o céu sem perceber se o céu existe.
Destinos abandonados, futuro incerto,
mãos atadas que tricotam ausências,
desejos interrompidos, vontades controladas.
Um dia a mais, só mais um dia
para lembrar que o dia de sonhar é hoje.
Sentimentos de coragem buscam respirar
o pouco que nasce da ousadia
que a miséria obriga e cobra;
mas não há força na voz, viver é um ato de despedida.
Tensão e dor nas marcas que carregam
cicatrizes,
seguindo a mansidão da inexistência,
escorados por sonhos que morrem lutando.

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